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16/09/2009 - 17:15

Bob Wilson e Patrice Chéreau apresentam formas teatrais paralelas que se bifurcam na diversidade contemporânea

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Isabelle Huppert é a Marquesa de Merteuill em <i>Quartett</i>

Isabelle Huppert é a Marquesa de Merteuill em Quartett

Crítica de Michel Fernandes, especial para o Último Segundo(michel@aplausobrasil.com)

 

SÃO PAULO – Interessante pensar a forma do teatro apresentado por Bob Wilson – Quartett – e Patrice Chéreau – Le Grand Inquisiteur e La Doueleur –, atrações teatrais bastante aguardadas no Ano da França no Brasil, cujo patrono oficial é Danilo dos Santos Miranda, diretor regional do SESC São Paulo, instituição cujo mérito tem o aval de excelência de toda nossa classe artística.

 

Os trabalhos apresentados sob a regência dos dois diretores representam dois pólos opostos das artes cênicas, duas paralela que e bifurcam e, fundidas, simbolizam a diversidade que o palco comporta na forma de fazer arte.

 

O diretor francês Patrice Chéreau

O diretor francês Patrice Chéreau

Em Le Grand Inquisiteur e La Doueleur, ambos dirigidos por Patrice Chéreau, há um chamamento à intimidade. A base sólida é o texto verbalizado. Não consigo enxergar subserviência às palavras e às emoções por elas suscitadas, como os mais afeitos ao teatro que priorize o gestual. Prefiro a ambos, desde que bem executados, o que é o caso. Já comentei (CLIQUE aqui para ler) sobre o impacto causado por Le Grand Inquisiteur que aguçou as expectativas ao monólogo interpretado pela atriz Dominique Blanc.

 

E La Doueleur cumpriu com absoluta pontuação o que se esperava. Há um profundo entendimento do que se diz nas peças dirigidas por Patrice Chéreau, uma forma de diálogo com o texto, com distinção nos focos sobre o que e a quem se fala, que, mesmo que haja apenas um intérprete em cena, os espaços são preenchidos. Espaços que conduzem para uma atmosfera interior, a uma delicada intimidade e cumplicidade. 

 

Já o foco do norte-americano Robert Wilson, diretor do Quartett, do Odéon-Théâtre de l’Europe de Paris, é mais amplo. Seus espetáculos exigem maior espaço físico e amplitude da participação de nossos sentidos. Os diversos elementos que compõem sua elaborada encenação – iluminação, cenários, objetos de cena, figurinos, maquilagem e uma interpretação estilizada – têm o mesmo peso. Tudo é signo. Nem todos de simples acesso intelectual, mas a beleza das imagens afeta nosso inconsciente e nos absorve nesse sonho.

 

Escrito pelo alemão Heiner Müller, figura emblemática da dramaturgia que Hans-Thies Lehmann denomina como pós dramática, Quartett tem inspirações nos personagens de As Ligações Perigosas (Les Liaisons Dangereuses), de C. de Laclos, de quem Müller confessa não ter lido a obra toda, coloca o diálogo entre duas figuras da nobreza decadente – que pode ser lida, aqui, como a alta-sociedade burguesa -, a Marquesa de Merteuill (a exuberante Isabelle Huppert) e o Conde de Valmont (Ariel Garcia Valdès), num jogo de forças entre os sexos e a capacidade de dissimular para conquistar seus objetivos, num tratamento despojado de ordem dramatúrgica clássica, com monólogos de uma poesia cruel, humor corrosivo e irônico, de livre espaço para que o encenador preencha com seus sentidos as lacunas propositais deixadas pelo texto.

 

O amor, a paixão, o desejo, o instinto, a submissão, ou mesmo a simulação desta, são sentimentos que trafegam a desfigurada máscara daquele que faz de si um personagem e de sua vida um jogo de tensões fictícias estão em cena. Há, também, a luta entre a vida e a morte que, aparentemente, delineia a encenação.

 

E mesmo que as palavras não reinem absolutas aqui – nem por sua ausência, nem pela ineficácia de comunicação – as interpretações são menos complexas. Há que e dominar uma infinidade de técnicas – gestual e vocal, sobretudo – e estabelecer um diálogo eficaz com a tecnologia utilizada. As palavras, aqui, não tem o peso de serem inteligíveis, antes, há um jogo com a sonoridade – e a sonoridade da língua francesa é indiscutivelmente melódica – das frases, palavras marcadas, o ritmo e o humor resultante desse entrelaçamento.

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