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16/10/2009 - 23:40

Na Selva das Cidades re-estreia no Teatro Aliança Francesa

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Michel Fernandes, especial para o Último Segundo (michel@aplausobrasil.com)

<I>Na Selva das Cidades</I>, um dos primeiros textos de Brecht

Na Selva das Cidades, um dos primeiros textos de Brecht

 

Depois de um mês de bem-sucedida temporada na Funarte, o espetáculo Na Selva das Cidades, de Bertold Brecht, chega ao Teatro Aliança Francesa neste sábado (17), 21h.

A direção é de Marcelo Marcus Fonseca e conta a história de dois homens e a destruição que provocam, sem motivo a não ser o desejo de possuir um a alma do outro, na sociedade em que fazem parte.

Em cena, 13 atores da companhia Teatro do Incêndio apresentam sua terceira incursão na obra do  dramaturgo alemão B. Brecht – as outras foram Baal – O Mito da Carne e A Boa Alma de Setsuan – propondo uma releitura que dialogue com o momento atual da realidade social.

“Convidei o Mario Vitor Santos pra meu debatedor em ensaios. Não pra essa coisa careta de a peça está boa ou não, mas no sentido de se está falando ou não sobre nós hoje. E levantamos questões relevantes com o elenco sobre isso. Por exemplo, por que colocar uma peça em cartaz e pra quê?”, conta o diretor Marcelo Marcus Fonseca, também integrante do elenco.

Um dos desejos do diretor, que inseriu um poema do próprio Brecht na montagem (Lenda de um Soldado Morto), é levar o público a reflexão.

“Acho pertinente se falar em “pensar”, mas mais importante é estar. Quem está pensa. Por isso a arte tem que ser superior ao social. Ela fica, o discurso passa”, conclui.

Com músicas especialmente compostas, melodias roqueiras inspiradas na Floresta do Amazonas, de Heitor Villa-Lobos e a voz em off de José Celso Martinez Corrêa, diretor da antológica versão de Na Selva das Cidades, de Brecht, há 40 anos, Marcelo Marcus Fonseca, diretor da nova montagem da peça, falou a Michel Fernandes sobre o processo de montagem. IMG_5943  

Michel Fernandes – O diretor Peter Brook diz que um espetáculo começa com o cair do pano. Em sua montagem de Na Selva das Cidades há o desejo-convite para que o público reflita sobre o que viu. Quais mecanismos você utiliza na encenação para que isso seja capaz?

Marcelo Marcus Fonseca – Convidei o Mario Vitor Santos pra meu debatedor em ensaios. Não pra essa coisa careta de a peça está boa ou não, mas no sentido de se estava falando ou não sobre nós hoje. E levantamos questões relevantes com o elenco sobre isso. Por exemplo, por que colocar uma peça em cartaz e pra quê? Acho pertinente se falar em “pensar”, mas mais importante é estar. Quem está pensa. Por isso a arte tem que ser superior ao social. Ela fica, o discurso passa.

 Michel Fernandes – Qual a regra básica utilizada por você na condução dos atores do Teatro do Incêndio?
Marcelo Marcus Fonseca – A regra básica é o interesse pelo assunto. Querer discutir o mundo e o homem é o que me encanta: um ator que tem o que dizer. Conduzo meus atores à consciência da palavra. Quem fala é ele, com todo material que colheu nos ensaios. Mas advirto: aqui é corpo e voz. Na medida em que corpo e voz entendem o mundo. Eu tenho a direção artística dos espetáculos, mas a direção do grupo é dividida entre mim e Liz Reis, que além de fazer a direção de produção, coordena um núcleo de figurinos e é atriz. Tenho João Urbílio coordenando um núcleo de música e atores como Zaira B. Alves, Rene Ramos, Sergio Ricardo (que divide cenografia comigo), Rene Ramos, Augusto Cesar, entre um monte de gente, que se entrega ao dia a dia de aprofundar temas. Tenho ainda o privilégio de ter meu mestre em Brecht – que fundou esse grupo comigo -, Wanderley Martins, em cena em casa e na vida.

Michel Fernandes – Qual a característica mais relevante do grupo?
Marcelo Marcus Fonseca – Uma peça não pode ser chata. Teatro é diversão, como disse o Brecht. E ensinamento. Pela diversão. Quem vai ao teatro quer ser tentado. Pelo que? Pela arte. Não pela chatice.
Michel Fernandes – Por que recorrer novamente a um clássico da dramaturgia brechtiana (o Teatro do Incêndio já encenou Baal e A Boa Alma de Setsuan, do autor) e, especificamente, à Na Selva…?

Marcelo Marcus Fonseca – Pra mim ele é veículo, não clássico. Eu contraceno com 2009, com Na Selva das Cidades, discuto com o Brecht sem subserviência. A “dramaturgia brechtiana”! é uma fantasia de brasileiros que não dialogam com o tal do Bertolt. Voltando ao Peter Brook, um autor depois de morto, evolui, mas tem gente que não deixa o Brecht se modernizar, trancando ele numa camisa de força, dizendo coisas que nem ele acreditava mais no fim da vida. Na Selva … se dá assim: O homem é a selva. O homem precisa acabar com o que se põe em seu caminho e precisa colocar alguma coisa no caminho. Brigamos porque precisamos da luta, mas não sabemos por que lutamos. Esse mundo pede socorro dialeticamente. Intolerância com o diferente, homofobia, vaidade, rancor, autopunição, ódio, mesquinharia, pobreza, a maldade em uma boa ação, liberdade, são de certa forma assuntos correlatos discutidos na peça para o espectador de hoje, que observa assustado a fraqueza moral em suas calçadas. È isso que me interessa: o homem, por que o homem vive e como.

Michel Fernandes – O que diz a peça que se entrelaça ao q e o Teatro do Incêndio quer dizer?

Marcelo Marcus Fonseca – O que nós queremos dizer junto com o autor é que as pessoas querem vencer. Vencer o que? A vida tem uma única linha de chegada: a morte. Você quer passar por cima de que pra morrer? Mas acima de tudo queremos dizer que fazer teatro vale a pena. Que acreditar vale apena. Que questionar é saudável e que a democracia é melhor do que qualquer coisa e ninguém têm o direito de julgar o outro. Começamos o espetáculo sem um tostão. Mas acreditamos e o dinheiro veio. A Funarte nos convidou para estrear dia 11 de setembro e nos deu toda condição, sem censura. Luz, cenário, temporada popular, equipe, sala de ensaio. Assim que tem que ser. Com condição de trabalho.

Michel Fernandes – Depois da temporada popular há algum plano de ação para o grupo?

Marcelo Marcus Fonseca – A Selva… segue até o fim do ano.  Depois o grupo começa uma pesquisa para uma peça nova que está sendo traduzida pela primeira vez para o Brasil, mas que não gostaria de falar ainda. Nós, que estamos aqui, assumimos nosso ofício: a pessoa vem depois do teatro. Mas acima de tudo, a pessoa é o teatro. Ensaios longos, discussões filosóficas, dialética, retórica, tudo presente: Quem escolhe essa função, esse ofício, esse modo de viver, tem que ser do teatro. Não do bar. Pra trabalhar no Teatro do Incêndio é assim. Aqui não é curso nem escola. É um jeito de olhar o mundo com todo rigor e silêncio que o teatro merece.

 

FICHA TECNICA

Autor: Bertolt Brecht

Direção: Marcelo Marcus Fonseca

Direção musical e trilha original: João Urbílio

Figurinos: Liz Reis, Fernanda Ruivo e Renan Serrano

Cenografia: Sergio Ricardo e Marcelo Marcus Fonseca

Iluminação: Renato Lopes e Marcelo Marcus Fonseca

Fotos: Pya Lima

Maquiagem: Ivon Mendes

Projeto gráfico: Giuliano Henrique de Carvalho e Valeria Santos

Elenco: Liz Reis, Rene Ramos, Wanderley Martins, Marcelo Marcus Fonseca, Zaira B. Alves, Ivon Mendes, João Urbílio, Valdir Zanquini, Nader Ghosn, Fabiana Vajman, Sergio Ricardo, Thiago Molfi, Ricardo Mancini

Produção e Realização: Cia Teatro do Incêndio

 

 

Na Selva das Cidades

Reestréia: 17 de outubro

Horários: Sábados às 21:00 h e domingos às 20:00 h

Local: Teatro Aliança Francesa (214 lug.)

Endereço: R. Gen. Jardim, 182 – Vila Buarque

Telefone: 11 2347 1055 / 11 3271 0718

Duração: 120 minutos

Estacionamento: em frente (Manhattan Park)

Temporada popular até 22 de novembro: R$ 20,00 e R$ 10,00

Acesso a deficientes físicos: sim

Recomendada para maiores de 14 anos

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2 comentários para “Na Selva das Cidades re-estreia no Teatro Aliança Francesa”

  1. JOELMA PENNA disse:

    SER MUITO TRISTE K NO BRASIL O TEATRO TEM K SER UMA ESTORIA SIMPLES DE FACIL COMPREENSAO POPULAR SEM MUITO ESFORÇO DE RACIOCINIO…..

  2. Paulo de Tarso disse:

    Um espetáculo que pelo trabalho de direção e dos atores deveria ter um público cinco vezes maior…
    Gostaria que esse grupo tivesse a continuidade que tiveram outras companhias em outros tempos…e quem sabe somado a um repertório com oportunidades a novos autores, no mesmo âmbito temático, talvez o marco de uma nova história no teatro…!!!???
    Quem sabe não poderiam surgir autores de dentro do mesmo grupo???!!!
    Uma nova sorte poderia estar sendo lançada!!!
    Parabéns..bravo… (termos desgastados e que dizem pouco …)

    P. Tarso

Os comentários do texto estão encerrados.

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