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09/11/2009 - 14:03

Gritos (Decameron) e Sussurros (Valsa nº6 mais 48 outros)

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Afonso Gentl, especial para o Aplauso Brasil (afonsogentil@aplausobrasil.com)

<i>Valsa nº 5</i>, um, entre os 49, monólogos que estrearam em 2009

Valsa nº 5, um, entre os 49, monólogos que estrearam em 2009

 

O título desta matéria ficaria melhor com um 49 antes da palavra “sussurros”. Por sua vez, os gritos de Decameron (a recente estréia do Teatro Augusta) não são bergmanianos, porque a serviço de uma numerosa e alegre troupe carioca que, desde o saguão, comunga-se com o tagarela público

 

Vamos, então, ao nº 49 antes dos “sussurros” que, doravante, chamaremos com seu nome próprio: monólogo, gênero a que se agrega Valsa nº 6 e que explodiu literalmente em nossos palcos neste 2009, com  incríveis 49 estréias, até outubro, com a média de 5 por mês!

Por uma pesquisa que nos demos o trabalho de fazer, na revista da APCA (Associação Paulista dos Críticos de Arte), comemorativa dos 50 anos da respeitada entidade a que pertencemos, confirmamos aquilo que na prática teatral por nós exercida até 1990, como diretor e professor de interpretação, já havíamos identificado: monólogo, sempre foi e continuará sendo um terreno pantanoso, um campo minado para os “operários” do palco, por possibilitar o fantasma do fracasso, ao mesmo tempo que alimenta a vaidade natural de todo intérprete teatral.

 Diante do incrível e inesperado sucesso da atriz Berta Zemel, no monólogo A Vinda do Messias, de Timochenko Webbi, ambos premiados nas suas categorias pela APCA em 1970, a classe teatral ficou na expectativa de um “boom” do gênero (como acontece agora com a malfadada stand-up comedy – comédia em pé -) aguardando novos “atrevimentos” dos seus ícones em atividade. Mas, deu-se o contrário, só de quando em quando, num determinado ano, uma ou duas vezes por ano, o fenômeno acontecia. Assim, nestas ultimas décadas só expoentes do oficio lançaram-se sozinhos aos palcos: Antonio Fagundes (3 vezes, com o atual Restos), Marilia Pêra (2 vezes), Luis Melo , Cleyde Yáconis, Diogo Villela, Juca de Oliveira ( 2 vezes, contando com Happy End, deste ano), Zécarlos Machado (do TAPA), Claudia Mello, Regina Braga, Elias Andreato (especialista, com 3) e pouquíssimos outros navegaram nesse enfrentamento solitário. Isso até 2009…

Por obrigação de ofício, vimos 21 dos 49 solos estreados neste ano: Alberto Guzik, Juliana Galdino, Betty Faria, Marco Antonio Pâmio, Elias Andreatto, Rosaly Papadopol, Mika Lins,  a carioca Inez Viana, o curitibano Leandro Daniel Colombo, Norival Rizzo e, é lógico, Antonio Fagundes, mereceram as boas críticas que tiveram e o reconhecimento do público.

 Longe deste crítico interferir nas decisões dos produtores/atores, mas, realmente, monólogo não cai bem em recém-formado por curso teatral. E muito menos, nas mãos de principiantes. Os monólogos exigem, de quem os faz, muita tarimba na profissão, temperada com um certo sangue frio ao entrar no palco. E aquele indispensável respeito pelo público pagante.

 

                                       ALEGRE DECAMERON

DecameronHavia muito tempo que não ouvíamos tamanho alarido no palco,  atapetado de cachos de bananas, para tratar de falos e vaginas, nas picarescas situações criadas por Giovanni Boccaccio, parisiense nascido em 1313 , as quais atravessaram todos esses séculos nos palcos do mundo ocidental.

A direção de Otávio Muller, bom comediante no teatro e na TV, soa a princípio “barroca” demais com movimentos, canto e falas à beira da histeria cênica, até que a partir da 2a. metade da peça, passa a segurar o público com as piadas e situações pornográficas trabalhadas com uma certa (pasmem!) elegância cênica (não há nudismo nem exposições de genitálias), graças – e muito – aos sinceros desempenhos de Maria Paula, George Sauma (o jovem protagonista), Marcos Oliveira, Jô Santana, Zéu Brito e demais do numeroso elenco.

Cenário, figurinos, iluminação, luz e músicas (de Zéu Brito), entrosados ao dar a permanente feição de feira medieval, perseguida sabiamente por Otávio Muller. 

Para quem não agüenta mais monólogo, eis um  bom pretexto para ir ao Teatro Augusta.

 

                                    UMA APENAS CORRETA VALSA Nº 6

 Atriz de larga experiência , muito respeitada por seus marcantes desempenhos no Grupo TAPA e, mais recentemente, também em outros grupos, Clara Carvalho, deu  o melhor de si na concepção, no cenário e na sonoplastia do clássico monólogo de Nelson Rodrigues, Valsa nº 6, cartaz da sala Piscina do Viga Espaço Cênico.

O resultado foi um espetáculo de bem dosados recursos expressionistas, com a jovem atriz Marina Ballarin, bem marcada pela diretora, aproveitando bem sua juventude ao realçar a dubiedade anjo-demônio da macabra trama rodrigueana.

 Assiste-se ao espetáculo com interesse, mas a impressão final é de exame, estudado com afinco, mas preso aos seus próprios limites.

 Para quem ainda não se cansou de ver monólogos.

 

 DECAMERON/ Teatro Augusta/Rua Augusta, 943/ fone 3151-4141/302 lugares/ 6a. 2lh3O, sáb. 2lh e dom. 18h/80 minutos/14 anos/R$ 60,/70/ até dezembro

VALSA Nº 6/Viga Espaço Cênico –Sala Piscina/Rua Capote Valente, 1323/ fone 3801-1843/ R$ 30,/ sáb 21h, dom. l9h./ 14 anos/ 50minutos/ R$ 30,/ até 29/Novembro.

Autor: - Categoria(s): Colaboradores, Críticas Tags: , , , , , , , , , ,

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