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02/02/2010 - 17:46

Diretores veteranos celebram elegância cênica

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Afonso Gentil, especial para o Aplauso Brasil (afonsogentil@aplausobrasil.com)

Com texto de Neil Simon, comédia está em cartaz no Teatro Folha

Com texto de Neil Simon, comédia está em cartaz no Teatro Folha

Nocauteando uma considerável porção de renitentes, presunçosos e bisonhos adeptos de última hora do processo colaborativo (aquele em que todos dão palpites, geralmente, para o desastre final), método “moderno”, “contemporâneo” de uma montagem teatral, tão em voga ultimamente, para, é bom acrescentar, suplício do público bem informado e bem formado e da crítica mais atenta às investidas estéreis dos sem-talento contra (ora veja!) a competência hegemônica, desde sempre, dos espetáculos onde um diretor congrega e comanda toda a sua equipe para servir às idéias do autor eleito, os  experientes diretores Celso Nunes e José Rubens Siqueira  retornam com dois magníficos exemplos de elegância cênica: Estranho Casal e O Inferno Sou Eu, respectivamente.

Estes dois espetáculos elegantes (como elegância leia-se competência, bom-gosto, equilíbrio técnico-artístico, garbo e todos os demais sinônimos do Aurélio), livram-nos do pesadelo da lembrança do “colaborativo” mais recente, o abominável e irritante DDP-4469, visto em dezembro, mas ainda ocupando o mítico palco do Teatro de Arena, tornando a Funarte uma vítima involuntária e distraída da incompetência do “coletivo” contemplado para usar o espaço.

Cena da peça <i>Estranho Casal</i>

Cena da peça Estranho Casal

ESTRANHO CASAL

Celso Nunes – finalmente! – ri. Tal como a mítica e trágica Greta Garbo fez em Ninotchka, o denso (mas jamais tenso) encenador do demolidor Victor e as Crianças no Poder, dos pungentes Eqqus e O Interrogatório e outros dramas de alta voltagem que ele montou ao longo do tempo, desde as décadas de 60/70 do século passado, Celso, o mais bissexto daquela ‘geração de ouro’, reaparece no Teatro Folha dirigindo um dos mais aplaudidos textos do prolífico (e competente) autor norte-americano Neil Simmon, Estranho Casal, onde dois quarentões casados, em processo de separação, vão conviver no apartamento de um deles. Para desespero justamente do cedente.

Simon se esbalda na crítica satírica da convivência entre os humanos, independentemente do sexo de cada um.

É muito prazeroso flagrar o riso desse novo Celso Nunes, senhor absoluto da leveza e do ritmo ágil dos diálogos (que soam brilhantes), com marcações nunca menos que hilariantes beirando o clownesco (a cena das duas irmãs tentando levar para a cama o distante anfitrião do momento, ficará como um instante antológico de timing cômico) e ainda a atuação afinadíssima de todo o elenco, com Edson Fieschi e Carmo Dalla Vecchia, impagáveis todo o tempo, tudo, nas mãos de Celso Nunes, converge para o riso aberto e agradecido do público, aquele público que paga com prazer para participar da celebração da elegância cênica.

O INFERNO SOU EU

José Rubens Siqueira é o outro veterano e bom encenador bissexto que retorna, desta vez no Teatro Jaraguá, com O Inferno Sou Eu, texto surpreendentemente bem escrito da jovem Juliana Rosenthal K., o qual nos mostra uma Simone de Beauvoir reclusa no Recife, devido ao estado febril (tifo) de que fora vitima durante sua estada no Amazonas, por volta de 196O. A trama de Juliana capta com sucesso a incoerência que passa a reger os atos e pensamentos desse mito do feminismo, cujo O Segundo Sexo passou a ser uma espécie de bíblia para as gerações de mulheres surgidas a partir de então, quando tomada pela paixão ao seu amante americano, Nelson Algren, para quem gostaria de ser “uma esposa árabe, que calça seus sapatos”

Colocando Simone de Beauvoir frente a uma cultura totalmente diferente (e inferior) à dela, na figura de uma estudante de letras, Dorinha (personagem fictícia), a peça cresce a cada cena num confronto simpático e revelador das nossas deficiências culturais, ao mesmo tempo que faz ruir as teorias feministas da escritora, tornando-a, porém, muito humana e frágil diante do amor extemporâneo por Nelson Algren.

A direção de José Rubens Siqueira faz-se sentir, bastante, na postura aberta para o diálogo com as duas atrizes, deixando-as à vontade para preencher com desconcertante franqueza, mas indisfarçável delicadeza, uma amizade de desiguais que se completam. Marisa Orth está em um belo momento da sua carreira, madura técnica e emocionalmente, dominando a platéia com seu pouco explorado (mas, imenso) talento dramático. Deve ser bem lembrada nas premiações do ano. Paula Weinfeld, surpreende-nos pela desenvoltura e segurança em cena, brindando a platéia com uma deliciosa Dorinha.

O cenário de Isay Weinfeld amplia as dimensões do palco um tanto acanhado do Teatro Jaraguá, assim como é bem completado por formas e cores solares.

Mais um espetáculo que veio para celebrar a elegância cênica, privilégio de poucos.

Estranho Casal/ Teatro Folha-Shopping Pátio Higienópolis  -av. Higienópolis, 618, piso 2/ fone 3823-2323/305 lugares/ 6a. 2lh30, sábado  2Oh e 22h, domingo 2Oh/ 9Om/R$ 50, e R$60,/ l2 anos/ até 28-3

O Inferno Sou Eu – Teatro Jaraguá-Novotel Jaraguá, rua Martins Fontes, 71, telefone 3255-4380/ 6a 2lh30, sáb. 2lh, dom. 19h/ R$ 70, (6a. e domingo) e R$ 80, (sáb)/ 90 minutos/12 anos/ até 25-4.

Autor: - Categoria(s): Colaboradores, Críticas Tags: , , , , , , , , , , , , , , , , , ,

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