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15/04/2010 - 17:12

Cloaca mostra como o pragmatismo exacerbado pode gerar frustrações

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Kiko Rieser, especial para o Aplauso Brasil

CLOACA re-estreia sexta-feira no Teatro ImprensaO teatro é talvez a arte que abarque intercâmbios com mais naturalidade. É raríssimo o diretor de um filme não ser conterrâneo e contemporâneo do roteirista, por exemplo, pois geralmente o trabalho se dá em colaboração mútua entre os dois profissionais. Embora na música seja freqüente um intérprete executar uma canção composta num lugar e num tempo distantes, a divisão efetiva de autoria entre pessoas de diferentes “universos” parece só ser comum no teatro, onde uma companhia de algum pequeno país da América Central pode montar um autor grego de milênios atrás.

Essa troca só tende a ser enriquecedora, pois evidencia pontos de convergência ou mesmo de atrito entre duas culturas diferentes. Às vezes, o simples ato de encenar uma peça, independentemente das escolhas estéticas usadas, pode servir como denúncia de tempos estagnados ou de uma época em que países em graus tão diferentes de desenvolvimento se igualam em certo aspecto. Cloaca, espetáculo do Grupo TAPA com texto da holandesa Maria Göos e direção de Eduardo Tolentino, é um representante deste último caso.

Quatro sujeitos que são amigos há mais de vinte anos – “cloaca” é a saudação que eles usam entre si – se encontram para resolver um problema prático. A presença de cada um no ato do encontro é movida claramente por razões que não a saudade ou a necessidade da reunião amigável.

Jan sai de casa após uma briga com a ex-mulher e, não tendo aonde ir, pede abrigo na casa de Pieter. Este, pressionado a devolver obras de arte com que foi ilicitamente presenteado pela prefeitura, precisa de um advogado. Tom, por sugestão de Jan, aparece para defender a causa. Depois, entra em cena Maarten, que, tendo um caso com a filha do último, fica sabendo de sua separação conjugal e vai atrás do amigo, não se sabe se pela amizade ou por tentar amenizar o impacto que pode vir a causar a revelação de sua relação com a garota, motivo mais provável.

Estão todos, enfim, movidos por implicações pragmáticas da vida contemporânea, as mesmas que, supõe-se, esvaeceram a relação entre eles. E é nessas imposições da vida urbana do século XXI que todos os países se irmanam, e a peça, sem nenhuma adaptação, não tem nada que a impossibilite de se passar em qualquer metrópole brasileira.

Da mesma forma que a amizade entre eles se abalou com a falta de tempo e com a necessidade de sobrevivência, o mesmo aconteceu com os sonhos e desejos individuais. Ao longo da obra, enquanto os quatro se unem para ganhar a causa de Pieter e por trás do espírito objetivo que mostram, todos vão deixando entrever frustrações e passados mal-resolvidos. Assim como privilegiaram os encargos da vida adulta em detrimento do afeto juvenil do grupo, relegaram a segundo plano suas realizações pessoais.

A própria trama central, da apropriação ilegal dos quadros, reflete o tema do pragmatismo como algo corrosivo que impede o pleno exercício da autonomia e da liberdade. Historiador da arte, Pieter vê como malogro ter se tornado funcionário público. O mau relacionamento com os colegas faz com que ele seja o único a não ganhar presentes normais, mas quadros rejeitados que ficam jogados num depósito. Seu amor pela arte e sua capacidade crítica faz com que ele se apague às obras, que depois passam a valer fortunas e a ser alvo de perseguição. O desinteressado apreço se torna, então, suscetível à atração financeira.

Não reconhecendo em si mesmos a capitulação a tudo que lhes era mais caro, ou talvez justamente pela consciência dessa renúncia, os quatro amigos dão pequenas represálias uns nos outros, lembrando os companheiros de não se deixar esmorecer nem abnegar suas metas.

São essas pequenas fricções que a encenação de Tolentino enfatiza, ao mesmo tempo em que as expõe plácidas e ternas, entremeadas a risadas e brincadeiras de uma amizade que, ainda que adormecida, nunca se rompeu. Por essa ânsia do espírito objetivista que as personagens tentam o tempo todo ostentar como máscaras, o espetáculo tem ritmo rápido, e é na flutuação constante entre os momentos afetuosos e os de rusga que aparecem os matizes da frustração.

Na tentativa de se mostrarem inabaláveis, as personagens ganham uma combinação de ironia e sarcasmo como tom dominante, enquanto acompanham a oscilação na forma de se relacionar proposta pela encenação, o que é dominado com maestria por André Garolli (Jan), Brian Penido Ross (Maarten) e Dalton Vigh (Tom).

A exceção ao elenco homogêneo é Tony Giusti (Pieter), que, ainda que acompanhe a concepção do espetáculo nas citadas ironia e oscilação, trabalha em outro registro sem motivo aparente, um pouco distante do naturalismo dos colegas, não longe do arquétipo. Giusti interpreta cada intenção de Pieter em seu estereótipo, como se frisasse o estado principal da personagem sem dar espaço para subtons e utilizando a mesma prosódia em todas as frases, sublinhando sempre a última palavra.

Ficha Técnica:

Autora: Maria Göos

Tradução: Fernando Paz

Direção: Eduardo Tolentino de Araújo

Elenco: André Garolli, Brian Penido Ross, Dalton Vigh e Tony Giusti

Cenário e Figurino: Lola Tolentino

Iluminação: André Canto

Assistência de Iluminação: Conrrado Sardinha

Fotos: Paulo Emílio Lisboa

Programação Visual: Zehenrique de Paula.

Divulgação: André Canto

Produção: Grupo Tapa

Cloaca – Reestreia dia 16 de abril de 2010, sexta, às 21h30, no Teatro Imprensa. Temporada:sextas às 21h30, sábados às 21h e domingos às 19h, atédia 13 de junhoTexto: Maria Goos. Tradução: Fernando Paz. Direção: Eduardo Tolentino de Araújo.Produção: Grupo Tapa. Elenco: Dalton Vigh, André Garolli, Brian Penido Ross e Tony Giusti. Cenário e Figurino: Lola Tolentino. Iluminação: André Canto.Assistência de Iluminação: Conrado Sardinha.Coreografia: Edson Coelho. Fotos: Paulo Emílio Lisboa.Programação Visual: Zé Henrique de Paula.Apresentando: Camila Czerkes e Vanessa Dockk.Stand-in: Fernão Lacerda. Ingressos: R$ 40,00 inteira / R$ 20,00 meia. Censura: recomendado a partir de 14 anos. Duração: 120 minutos.

Teatro Imprensa – Rua Jaceguai, 400 – Bela Vista – São Paulo – São Paulo. Fone – 11 3241- 4203. Capacidade – 452. Funcionamento da bilheteriaDe terça a domingo a partir das 14 horas. Acesso e facilidades para pessoas com deficiência física. Ar-condicionado. Formas de pagamentoAceita pagamento em dinheiro, cheques e cartões de débito. Estacionamento conveniado na rua Jaceguai, 454 – Preço único R$ 10,00. Ingressos por telefone – Central Tickets For Fun (11) 4003-5588 (de segunda-feira a sábado, das 9 às 21 horas) ou pelo sitewww.ticketsforfun.com.br

Autor: - Categoria(s): Colaboradores, Críticas Tags: , , , , , , , , , , , , , , , , , , ,

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1 comentário para “Cloaca mostra como o pragmatismo exacerbado pode gerar frustrações”

  1. Litec disse:

    Teatro é tudo de bom

Os comentários do texto estão encerrados.

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