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22/04/2010 - 06:06

Cartas de um profundo olhar

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Ruy Jobim Neto, especial para o Aplauso Brasil (aplausobrasil@aplausobrasil.com)

“Procure o fundo das coisas: ali a ironia nunca chega”,

Poesia de Rilke no Viga Espaço Cênico

disse em determinado momento o escritor austro-húngaro Rainer Maria Rilke, em uma de suas cartas ao jovem poeta Franz Kappus, com o conhecimento consciente e doloroso das dúvidas do novato, com quem se correspondia, uma vez que Rilke, nascido em Praga, é considerado pela crítica e pelos fãs como o maior poeta a escrever em língua alemã.

O trecho pertence a Cartas a um Jovem Poeta, um exemplar raro e belo de um teatro epistolar, cujo processo começou em janeiro de 2008, e cuja montagem  chega ao Espaço Viga depois de uma temporada no SESC Avenida Paulista, antes da reforma do prédio.

A montagem é um trunfo triplo: da direção sensível de Claudio Cabral, da produção detalhista de Domingas Person e da arte maior do ator e co-diretor Ivo Müller, que interpreta Rilke no palco. Simplesmente brilhante.

A sensibilidade do público é colocada à flor da pele. Como arte teatral, as cartas formam um mosaico de discussões, pensamentos, lembranças e dores lancinantes da alma que Rilke nos deságua de forma magistral. As cartas foram publicadas pelo próprio correspondente, Franz Kappus, três anos após a morte de Rilke, mas o espetáculo não fica apenas nessa coleção de missivas ao novato.

O ator Ivo Müller em CARTAS A UM JOVEM POETA

Além do próprio Kappus, os pais do escritor e a amante e escritora russa Lou Andreas Salomé (que também foi amante de Freud, Nietzsche e Rodin) estão colocados em cena, bem como cartas a todos eles, pulsando nas idéias de Rilke.

O amor, a criação poética, a solidão, o contato com a natureza e a necessidade gritante de auto-conhecimento fazem da interpretação de Ivo Müller o perfeito veículo.

A técnica absoluta do ator, unida à forte marcação de cena, aos figurinos de Domingas, ao cenário de janelas vazadas, baús e livros, aos instantes delineados pela luz (do experiente Davi de Brito e de Vânia Jaconis) e à música de Gustav Mahler – conterrâneo de Rilke -, consagram Cartas a Um Jovem Poeta como um alinhamento de elementos cênicos eficientes e tocantes.

Mahler dá uma contribuição à parte. É o adagietto da 5ª. Sinfonia do compositor, a mesma utilizada por Luchinno Visconti em Morte em Veneza (diga-se de passagem, por indicação do próprio autor do livro, Thomas Mann), que nos entrega agora Rainer Maria Rilke a toda a sua busca, sua via dolorosa dos sentimentos internos, como os próprios textos colocados na voz do intérprete. O adagietto de Mahler praticamente dança com as cartas de Rilke.

Rainer Maria Rilke viveu entre 1875 e 1926, portanto viveu a passagem do século 19 para o século 20, um momento tortuoso para a Humanidade. Ele atravessou essa passagem do século como muitos outros de sua geração (leia-se  Mahler, Picasso, Freud, Jung, Nietzsche, Stravinsky, Górki, Tchekhov, Einstein, Diaghilev, Ravel, Debussy, Satie, H.G. Welles, Rodin e toda uma constelação de artistas e intelectuais de todos os campos da criação humana) e acabou por se tornar uma espécie de contraponto a um martírio civilizatório.

Rilke assistiu à franca decadência do perigoso jogo político e do poderio das metrópoles coloniais européias, o que detonou, em 1914, a 1ª Guerra Mundial. Dessa forma, ele e sua poesia compuseram uma flor no meio do asfalto, um brilho de luz em meio às trevas da civilização. Uma luz que doía, que se contorcia, como nesses versos (de O Torso Arcaico de Apolo): “E nem explodiria para além de todas as fronteiras / Tal como uma estrela. Pois nela não há lugar / Que não te mire: precisas mudar de vida.”

Fica na lembrança o espaço cênico que deixa suas arestas abertas, ou melhor, completo pela poesia, de baús e dores, de amores e a criação da palavra, tão rica e cara, que a encenação vigorosa e intensa dividida pela sensibilidade de Claudio Cabral e Ivo Müller traz à luz de nossas mentes. O texto do poeta austro-húngaro é muito atual.

Como platéia, a gente se reconhece, enquanto partícipes de um mundo em absoluta decadência, e a nítida sensação de que precisamos de muitos Rilkes.

São vários os textos utilizados na montagem, compondo um Rilke múltiplo e verdadeiramente amplo, pulsante. Por isso, Cartas a Um Jovem Poeta, como espetáculo, é um mundo onde a interpretação do ator compartilha com a platéia presente a visão do poeta e procura, de forma irresistível, como o próprio Rilke, o fundo das coisas, aquelas a que nem a ironia, nem a falta de sentido conseguem chegar, felizmente. O fundo das coisas que nos é tão caro, em nossos dias.

CARTAS A UM JOVEM POETA

Texto: Rainer Maria Rilke

Adaptação e Interpretação: Ivo Müller

Direção: Claudio Cabral e Ivo Müller / Supervisão: Arieta Corrêa

Iluminação: Davi de Brito e Vânia Jaconis

Figurino: Domingas Person

Música: Gustav Mahler

Produção: Domingas Person e Ivo Müller

De 31/03 a 29/04, quarta e quinta-feira, 20h

Viga Espaço Cênico, R. Capote Valente, 1323 (Metrô Sumaré) / Tel: (11) 3801-1843

Site: www.viga.art.br e www.cartasaumjovempoeta.com.br

Autor: - Categoria(s): Colaboradores, Críticas Tags: , , , , , , , , , ,

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3 comentários para “Cartas de um profundo olhar”

  1. […] Aplauso Brasil, crítica. Cartas de um profundo olhar […]

  2. Maria Schmidt disse:

    Nao pude ver a peca… moro longe. Mas adorei as fotos que fui conferir no site da peca.

  3. Marcelo Gilberto Alves disse:

    Bravo! Bravo! Bravo!
    Grande obra teatral.
    Prabéns.

Os comentários do texto estão encerrados.

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