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06/05/2010 - 12:32

Nitis Jacon tem 40 anos de histórias do FILO pra contar

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Redação (aplausobrasil@aplausobrasil.com)

Kazuo Ohno com Nitis Jacon e Yoshito Ohno (1992)

São 40 anos de estrada mapeadas por Nitis Jacon, uma das criadoras do Festival Internacional de Londrina (FILO), em Memória e Recordação – Festival Internacional de Londrina – 40 anos livro que propõe a narrar a memória do FILO, também como testemunha do festival.

Presidente de Honra do FILO, Nitis Jacon traça nesse livro, cuja realização é da Àmen (Associação dos Amigos da Educação e Cultura Norte do Paraná) e tem patrocínio da Petrobras, sua percepção dos acontecimentos.

Nitis Jacon

zNa contextualização dos momentos mais significativos e determinantes do FILO, Nitis se propõe a desmistificar a idéia de evento para afirmar o caráter processual do Festival que marcava festivamente um período limitado do ano, enquanto o processo de formação cultural avançava sem interrupção mesmo nos momentos de aparente ruptura.

Panorama das artes cênicas

Memória e Recordação traz um relato da trajetória da cultura brasileira a parti da história do FILO ao longo de seus 40 anos de existência, a partir das recordações de sua idealizadora, Nitis Jacon.

Rompendo as fronteiras entre história e memória, Nitis Jacon não se limita a apresentar a trajetória do mais antigo e representativo festival de teatro da América Latina reconhecido pelo ICOMOS/UNESCO como “Patrimônio Cultural Paranaense e do Teatro Brasileiro”. Vai além. Revela um amplo panorama das artes cênicas dentro do contexto histórico e social das últimas quatro décadas.

Tudo começa no emblemático ano de 1968, num encontro de inquietos e inconformados estudantes. Um ímpeto que atravessa a contracultura, a repressão da ditadura, a violência dos militantes, a resistência dos militantes, a redemocratização do país, as imposições econômicas, as vertentes teatrais, a diversificação estética, a globalização e muito mais. Desafios infindáveis que geram, a cada etapa, novos rumos e surpreendentes soluções.

Nitis Jacon constrói uma reveladora leitura dessa longa estrada de percalços e inquietações. Uma estrada repleta de dificuldade e desafios, dedicação e conflitos, batalhas e conquistas, deleites e ousadias. Um universo onde a arte revela o ser humano completamente desnudo em sua longa jornada pela acalentadora idéia de civilização.

Teatro e história

Desde 1968 se realiza, anualmente, em Londrina, no norte do Paraná, um festival de teatro. Começou como uma mostra local, depois regional e, em 1988, passou a ser um festival internacional de teatro. Em 2000, assumiu a proposta de um teatro que é a expressão de todas as artes, numa explosão de criatividade das várias artes que a compõem: dança, música, mímica, o circo, as artes plásticas, a fotografia, o cinema e o audiovisual, a arte popular… Cultura.

1968 foi o ano dos festivais e da rebelião dos jovens e da contracultura no mundo todo. O Brasil vivia o recrudescimento da censura, da repressão e do arbítrio. Manifestações, ainda que reprimidas, aconteciam em algumas capitais. Mas, e em Londrina? Uma cidade cumprindo 34 anos de fundação. Daquelas manifestações, quantas delas sobreviveram? E quantas delas sobreviveram sem aderir ao establishment, garantindo sua autonomia e independência?

O Festival Internacional de Londrina/ FILO completou, em 2008, quarenta anos de atividade regular, mais da metade da idade de Londrina. É o mais longevo do país, sem interrupção. São centenas de milhares de grupos de teatro e de outras artes, que aqui aportaram e expandiram seu reconhecimento e admiração em todos os continentes. Houve os que passaram por aqui vindos de todas as regiões do país, muitos que migraram e aqui se estabeleceram. Outros, daqui, fazem sucesso no país e no exterior. O FILO recebeu os mais importantes nomes do teatro nacional e internacional nos Congressos e nos palcos, para um público cada ano mais abrangente e fiel, incidindo fortemente no desenvolvimento cultural, educacional, turístico e econômico da cidade.

O FILO manteve suas diretrizes originadas num Congresso de 1971, preservando o espaço para os grupos e artistas locais, estaduais e nacionais, numa interação recíproca com os grupos e intelectuais de outros países.  Seminários, congressos, oficinas, debates, corredores culturais com os países latino americanos nos intervalos entre os festivais anuais. A primeira e única Sessão Pública da Escola Internacional de Teatro Antropológico fora da Europa.

Mas não se deteve nisso. Expandiu sua atuação na horizontalidade de Londrina e da região em direção às populações marginais e vulneráveis através dos Projetos de Maio. De cunho sociocultural, anteciparam-se aos Pontos de Cultura que, hoje, têm aqui alguns de seus mais expressivos grupos em ação no país e até em festivais e encontros no exterior.
O FILO mantém a reflexão social como ponto de partida e de chegada em seus movimentos de expansão e convergência, numa superação das clássicas barreiras entre cultura popular e cultura erudita, iletrados e letrados, sociedade rural e sociedade urbana, tradicional e moderno, atraso e progresso.

TRECHOS DO LIVRO

INTRODUÇÃO – QUARENTA ANOS

“Contar esses anos todos me deixa confusa. Não são anos. São meses, dias, horas, instantes. Flagrantes instantâneos de imagens fugidias mais que lembranças lógicas descritíveis.”

“Quantos debates, polêmicas, horas a fio no falso embate entre uma coisa ou outra. Como orientar o trajeto sem trair o pensamento libertário da juventude e manter aceso o sonho de cada momento criativo que fluía espontâneo como suor na pele em dia de sol. Na verdade, não eram duas margens, mas um mesmo caminho equilibrado entre a razão e a emoção no impulso criativo. E por esse caminho trilhamos, sem referências seguras, apenas intuição e a certeza na mão.”

“O pequeno núcleo que resistiu à opressão, ao silêncio e à indiferença deixou sua marca indelével na história do festival e da cidade. Liberou o pólen ao vento e disseminou-o para muito além dos limites da cidade, habitando ilhas flutuantes em continentes distantes.”

“Não penso num relato cronológico e minuciosamente elaborado. Seria injusto e desnecessário. Há já vários livros, também programas e outros documentos que servirão de guia para possíveis ou eventuais pesquisas ou curiosidade. Prefiro deixar fluir a lembrança antes que a memória me trapaceie ou abandone.”

AGOSTO DE 1968

“Os acontecimentos de um futuro próximo confirmariam que viveríamos um tempo de guerra. Ainda no período de realização do 1º Festival, em outubro de 1968, recebemos, no mesmo pátio da sua gestação, a notícia do cerco do exército ao XXX Congresso da União Nacional dos Estudantes, em Ibiúna5. E a prisão de vários estudantes, entre eles o Alcides Carvalho, ator do Gruta (Grupo Universitário de Teatro de Arapongas), estudante de filosofia. O clima foi de consternação, medo e revolta. Ali ficamos, alguns noite adentro, aguardando notícias. Fermentando o inconformismo, a indignação e o pressentimento daquilo que se seguiria.

Então, aconteceu. Naquele mesmo ano de criação do Festival Universitário de Londrina, era decretado o Ato Institucional Nº 5.

Os dois Festivais seguintes enfrentariam tempos mais difíceis. A censura radicalizava. (…)”

A DÉCADA DE 1960 – ANTES DO COMEÇO

“Nos pusemos a andar… Os primeiros passos de uma jornada de quarenta anos.

O relato dessa história exige uma boa dose de coragem e discernimento, sobretudo levando-se em conta o protagonismo da autora em suas diversas etapas. Tenho perfeita consciência do distanciamento recomendável numa análise em perspectiva sociopolítica do seu contexto e de suas consequências. A circunstância permite presumir, entretanto, uma avaliação criteriosa através da vivência dos fatos aliada à objetividade necessária para a superação de conflitos e obstáculos. Hoje, o distanciamento é temporal. A memória passa pelo filtro da recordação.”

“Nessa perspectiva é que se inserem nosso festival, seus idealizadores, construtores, pensadores e sonhadores. O público, mais que qualquer outro fator, transformaria o evento em processo, patrimônio de Londrina e do teatro brasileiro, reconhecido pelo ICOMOS – International Council on Monuments and Sites – Conselho Internacional de Monumentos e Sítios, órgão ligado à Unesco.”

VISÃO PANORÂMICA DE DUAS DÉCADAS

“Embora a intenção não seja explicitamente a de uma narrativa cronológica dos fatos e impressões, considero importante e necessário situar o leitor na sequência do trajeto desenhado pelo Festival. Não apenas para efeito didático da perspectiva crítica de sua compreensão, mas principalmente para a sua identificação como um processo que periódica e regularmente celebra o encontro, circunscrito num tempo limitado a cada ano. O fluxo do Festival extrapola os limites do eventual e percorre variados compartimentos da vida de todos que coadjuvaram ou são coadjuvantes do processo, agentes ou espectadores.”

“Era um trabalho em progresso que se realimentava na festa do encontro, nos debates e oficinas, nos fóruns com participantes renomados, no contato com grupos de vários países e variadas tendências estéticas e técnicas, na análise dos avanços e dos eventuais insucessos e retrocessos. Na comunhão e na contrição. Essa prática, porém, não se autolimitava ao período do evento. Era rediscutida após o seu encerramento, analisadas sua continuidade e ações a serem executadas, considerada a percepção do público e a da equipe, sintonizando o conceito de política cultural inclusiva e de resultados.  No período entre os festivais, muitas ações passaram a ser criadas, apoiadas ou estimuladas, numa interação cada vez mais ampla e abrangente, trazendo a periferia para o centro e levando atividades inclusivas para as comunidades carentes.  Essas ações se reproduziram na horizontalidade geográfica da região norte do Paraná, atendendo à formação de vários grupos em outras cidades. O contágio multiplicava o número e a qualificação.”

“O processo contextualiza o FILO no seu diferencial, sobretudo quando a política cultural de incentivos e patrocínios veio a estimular o surgimento ou ressurgimento de festivais e relevou a cultura do entretenimento. Assim, o Festival que nascera de uma reação de universitários à solidão cultural de que sofria a vida acadêmica, nos finais da década de sessenta, continuou seu caminho ampliando os objetivos e com a mesma determinação, através da paixão e da conscientização sociopolítica dos operários dessa causa”.

SOBRE PRESENÇA DE KAZUO OHNO NO FILO, EM 1992 (Japão – Kazuo Ohno Dance Company – ‘Water Lilies” e “Ka Cho Fu Getsu”)

“A presença de Kazuo Ohno, então com 86 anos, e seu filho Yoshito Ohno valiam, por si, o espanto e a admiração de um Festival inteiro. Não falarei de seu trabalho e sua dança, mas da cordialidade, simpatia e humor que irradiava, mesmo sem falar português. Em silêncio já dizia muito, dançando ou apenas observando. A cena de Kazuo dançando no calçadão de Londrina ao brincar com os meninos de rua que o encontravam, usufruindo a alegria de estar ali, desconhecido porém familiar na arte que seu corpo falava, é inesquecível. Mais de mil pessoas, os corredores do Ouro Verde coalhados de público pelo chão, lágrimas correndo no rosto das pessoas enquanto ele executava com suavidade e perfeição a linguagem de suas longas mãos e de seu corpo cênico. Por quinze vezes teve que retornar para os aplausos, até que Yoshito pediu que não mais aplaudissem, pois seu pai necessitava repousar. Ajoelhei- me diante dele e lhe beijei as mãos. Quatro anos mais tarde, visitei-o em sua casa em Yokohama, Japão, e pude conhecer sua família, seu estúdio e seus figurinos. O jantar durou horas e, já tarde, Yoshito levou-me de volta a Tókio. Hoje, Kazuo tem 102 anos.”

Serviço:

Lançamento do livro “Memória e Recordação – Festival Internacional de Londrina – 40 anos”, de Nitis Jacon

Dia 7 de maio (sexta-feira), às 19h30, no Blue Tree Premium – Londrina

Apresentação: Mariângela Alves de Lima

Gênero: Teatro – história, memória

Formato: 18 x 25,5 cm, com capa dura e sobrecapa; 360 páginas

Realização: Associação dos Amigos da Educação e Cultura Norte do Paraná

Patrocínio: PETROBRAS

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2 comentários para “Nitis Jacon tem 40 anos de histórias do FILO pra contar”

  1. […] This post was mentioned on Twitter by michel fernandes. michel fernandes said: 40 anos de FILO http://aplausobrasil.ig.com.br/2010/05/06/nitis-jacon-tem-40-anos-de-historias-do-filo-pra-contar/ […]

  2. […] e diversificado do país, cujos 40 anos de trajetória, completos em 2008, pode ser conferido no livro Memória e Recordação, de Nitis Jacón, que resgata e analisa as transformações pelas quais […]

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