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08/06/2010 - 20:17

Claudio Botelho: “Delícia de Família Addams”

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Crítica de Claudio Botelho do musical Addam’s Family escrita para o site Möeller&Botelho no fia 1º de junho de 2010

Direto de Nova York, Charles Möeller & Claudio Botelho analisam os principais espetáculos em cartaz na Broadway no momento

"Addam's Family"

Vou começar este texto lembrando a todos que não sou crítico de teatro. Vou ao teatro para ver o que pode me divertir, emocionar ou, no mínimo, me tirar de mim mesmo por umas boas duas horas… O fato de estar na profissão não me dá nenhum crédito para falar dos espetáculos alheios algo mais do que “gosto” ou “não gosto”.  Isso é para os críticos.

Dito isto, vamos lá: A-DO-REI a FAMÍLIA ADDAMS, o musical!!!

Pra começar, não sou íntimo daqueles personagens, conheço o pouco que vi na televisão e nem é o tipo de seriado que eu goste, já que minha fixação são definitivamente os seriados policiais, de júri, sequestros, gente sendo assassinada, e o que mais Se puder imaginar nesta área…  Portanto, ”The Addams Family” na TV nunca foi meu prato favorito.

Nathan Lane as Gomez and Bebe Neuwirth as Morticia

Mas um musical é um musical. E o que mais me faz gastar 130 dólares em espetáculos da Broadway é acreditar que posso ouvir um tipo de música que me agrade, ou seja, música de teatro. E confesso que fui ver a FAMÍLIA ADDAMS cheio de medo de que eu fosse ouvir aquele tipo de canção que anda na moda na Broadway ultimamente, o tal do “indie-rock” (ou lá como se escreva isso), ou ainda o abominável “rap”, ou música que você pode perfeitamente ouvir no rádio, ou pior de todos: os imitadores de Stephen Sondheim que escrevem “música difícil” pra mostrar pra você que são ótimos alunos de harmonia de Berkeley e que assobiar uma canção no final do show é coisa pra gente decadente e pouco antenada .

Bom, mas neste caso aqui, de cara já fui surpreendido por uma música deliciosa de  Andrew Lippa, autor da música e das letras, que tem pouca estrada na Broadway (fez apenas “The Wild Party” que é ótimo, e algumas canções extras em “You´re a Good Man, Charlie Brown”).  As canções de “The Addams Family” são o ponto alto do espetáculo, com letras engraçadíssimas, cheias de humor negro e muito cinismo, como é de se esperar de um espetáculo baseados nestes personagens.  Há muito ritmo latino nas canções, um tango sensacional no segundo ato (“Tango de Amor”), que é um número onde Morticia e Gomez dançam depois de cantarem, e que proporciona em seguida uma das melhores coreografias do espetáculo para Morticia e o coro de bailarinos. Outro número excelente é o quarteto “Let´s not Talk About Anything Else But Love”, com Gomez, Mal, Uncle Fester e a Vovó Addams, um delírio no estilo de Cole Porter (a canção é quase uma paródia de uma das “list-songs” de Porter, “Let´s Not Talk About Love”), que traz um gosto de ‘velha Broadway’ ao centro da cena, o que aliás aparece em diversos outros momentos. Virei fã de Andrew Lippa assim que baixou o pano, quero ver e ouvir tudo o que ele fizer a partir de agora, já que dificilmente consigo me interessar por compositores de teatro nos últimos tempos, pois fico sempre esperando escutar algo que só ouço mesmo nos revivals.

O espetáculo foi muito mexido desde a estreia há alguns meses fora de Nova York. Trocaram de diretor, mexeram diversas vezes no texto, mudaram músicas, foi um tipo de produção bastante traumática e cheia de problemas até chegar ao Lunt Fontanne Theatre, que é um dos maiores teatros de Nova York, e um dos mais cheios de recursos cênicos para espetáculos de grande porte. Não faço ideia do pesadelo que viveram antes da estreia, nem mesmo do que rolou por trás do pano até chegarem aqui… Mas isso também não interessa, pois estou assistindo ao que está na minha frente, e não o que não chegou a nós na plateia. Deste modo, o cenário é bastante complexo, grandioso, talvez um pouco monumental demais, mas não deixa de ser bonito e gótico na medida certa. Os figurinos são lindos e as caracterizações são coisa de cinema: você está vendo o que viu na TV em preto e branco, sem tirar nem pôr. A luz é o padrão Broadway, ou seja, dificilmente você vai ver uma iluminação ruim ou mal feita num espetáculo que chegou a estrear ali. O mínimo de garantia é sempre ver um espetáculo bem iluminado, mesmo quando a proposta é trabalhar com muita escuridão e sombras, como é o caso de “Addams Family”.

O elenco é um caso à parte. Kevin Chamberlin como Uncle Fester é um ladrão de cenas, no melhor sentido da palavra. Super protegido pela adaptação, o personagem ganha número fantástico no segundo ato, algo entre entre o lírico e o grotesco, onde Fester dança com a Lua, sua namorada. Jackie Hoffman, que faz a Vovó Adams, é outro acerto: fala pouco, tem apenas alguns trechos em canções, mas é hilariante e tem as tiradas mais ferinas da peça. Uma delícia de composição!

Mas o casal de protagonistas é mesmo o destaque absoluto.  Primeiro, Bebe Newirth, uma estrela da Broadway, como Morticia. Ela é o personagem, com sua voz rouca e sensual, sempre parecendo de mau humor, com um charme incrível, e num papel que inclusive nem é à altura da sua carreira e do seu talento.

Contudo, a noite e o espetáculo são de Nathan Lane. Sou suspeito pra falar dele, pois sou mais que fã: sou obcecado por Nathan Lane.  Desde que o vi num palco pela primeira vez fazendo “Guys & Dolls” em 1996”, tornei-me um seguidor de Lane, não deixei de ve-lo em nenhum espetáculo em todos estes anos. De lá pra cá ele se tornou top billing absoluto, ou seja, um nome que sempre vem antes do título. Isto é para poucos no teatro, e Lane nem fez a habitual passagem para Hollywood (fez poucos filmes e não é um astro internacional, digamos assim); continua um ator da Broadway e dos musicais, como sempre. Já vi Nathan Lane em espetáculos inesquecíveis como “The Producers”, onde ele era o show em pessoa, e também em espetáculos menos vitoriosos como o tedioso “The Frogs” de Stephen Sondheim, que Lane ajudou a re-escrever e levar à cena. O show era um pouco chato, mas Nathan Lane fazia a gente aguentar até o fim.

Aqui na FAMÍLIA ADDAMS, no papel do patriarca Gomez, ele tem um personagem que lhe exige pouco, pois Nathan é muito parecido com seu Gomez.  É o dono da cena em quase todos os quadros, mas nem precisa se esforçar muito: sua cara de enfado, de preguiça e de desinteresse apenas ajudam o personagem que é cheio de tiques, detalhes de expressão facial impagáveis, sobrancelhas que se mexem para cada palavra do texto, e uma piada certeira atrás da outra.  Tudo o que Nathan Lane sabe fazer, e faz quase como se estivesse em casa, entre uma refeição e um banho de banheira, completamente à vontade e quase entediado.  Eu adoro isso! E o público o ama!

Sei que a crítica do Times falou mal do espetáculo. Sei que realmente não é uma unanimidade. Mas está lotado até o final do ano, você realmente precisa batalhar por ingressos na fila de desistências, e lhes garanto que o público sai muito feliz e cantarolante do teatro. É uma festa.

Comentei com um amigo brasileiro que não gostou muito do espetáculo que eu estou no meu momento “Márcia de Windsor”, ou seja, estou curtindo as coisas sem muito compromisso, achando tudo ótimo, divertido, dando nota dez sem nem pensar nas consequências… Bom mesmo é ser feliz, e to torcendo pra este sentimento durar bastante.

Então indico A FAMÍLIA ADDAMS pra todas as pessoas normais que forem à Nova York e quiserem assistir a um musical que não é uma revolução em nenhum aspecto da dramaturgia mundial, nem mesmo uma facada no peito de quem está a fim de descer às profundezas da alma humana, e menos ainda é algo pra você passar o resto da semana pensando a respeito. Mas é diversão garantida por duas horas e meia, com música de grande qualidade, muitas risadas, uma festança para os olhos e ouvidos.  Eu A-DO-REI!

Autor: - Categoria(s): Colaboradores, Críticas Tags: , , , , ,

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