Publicidade

Publicidade
09/06/2010 - 21:28

Promises, Promises: Deliciosa Comédia de Situações com Clima Vintage

Compartilhe: Twitter

Por Charles Möeller.

Os diretores Charles Möeller & Claudio Botelho analisam os principais espetáculos em cartaz na Broadway no momento

FONTE: SITE MÖELLER & BOTELHO

"Promises, Promises", roteiro de Neil Simon e músicas de Burth Bacharah

Estava muito ansioso pra ver a primeira remontagem de Promises, Promises (o original é dos anos 1960), pois tem um time de criadores de peso! O texto é de um dos maiores comediógrafos de todos os tempos, Neil Simon, baseado no filme O Apartamento, de Billy Wider, com músicas de Burt Bacharach e Hal David. Direção e coreografia do tarimbado Rob Ashford e, ainda pra reforçar, Sean Hayes e Kristin Chenoweth como protagonistas! Claro que foi essa peça que eu escolhi pra ser a primeira da maratona!

Já entramos no clima no overture, com bailarinos dançando todos os temas!   A peça se passa em 1962 e tem aquele clima vintage que sempre acaba rondando as remontagens de musicais dessa época. O cenário: o bom e velho ambiente de escritório. Os americanos adoram enredos que envolvem personagens de grandes escritórios, há dezenas de musicais, filmes, séries de TV, todos ambientados e à volta de situações de secretárias, chefes, datilógrafas, telefonistas, até mesmo ascensoristas de grandes corporações.

Promises, Promises é prima-irmã de How to Succeed in Business Without Really Trying, outra obra prima de musical da época! Nada mais machista e sexista que o ambiente de um escritório americano em plenos anos 1960, com suas secretárias carreiristas e seus patrões chauvinistas! Ainda não se vivia sob a sombra do politicamente correto e os processos por assédio sexual não eram sequer imaginados!

O tal ‘apartamento’ do titulo original do filme pertence a um novo funcionário da Consolidated Life, Chuck Baster, vivido por Sean Hayes. Por ele morar só, acaba emprestando o imóvel para um colega de trabalho ter um encontro às escondidas com uma colega. A partir daí a notícia da ‘locação’ se espalha e o apartamento se torna um cafofo para encontros amorosos de seus colegas de repartição: todos querem ter um lugar para levarem suas amantes de fino trato, em geral secretárias da empresa. O tal apartamento vira um point e acaba interessando ao próprio chefe do departamento, o mega poderoso JD Sheidrake, vivido pelo altíssimo Tony Goldwyn (que fez dezenas de vilões na TV e no cinema). O chefe deseja  ter um lugar privado para levar sua amante Fran Kulelik (Kristin Chenoweth), ironicamente a moça por quem Chuck nutre um amor platônico. Começa aí uma deliciosa comédia de situações, onde Neil Simon é mestre. Sempre impagável!

Produção caprichada,  com  reconstituição de época detalhada, luz linda, cenários deslumbrantes e figurino impecável. Ótimas coreografias com destaque absoluto para o trio em Turkey Lukey Time. E o elenco afiadíssimo faz de Promises. Promises um programa imperdível!

Mas tudo isso não seria completo sem a cereja do bolo: o  talentoso Sean Hayes (dir.). Pra quem não liga o nome à pessoa era o amigo gay afetado de Will na serie “Will & Grace”. Hayes está, inacreditavelmente, estreando na Broadway. A peça é dele! Tem um tempo de comédia ímpar e preciso, e não faz conceção à piada, consegue fazer todas as gags com uma incrível naturalidade. Lembra muito o jovem Jerry Lewis (que ele já retratou em um filme feito para a TV).

A cena em que ele tenta entender e depois se sentar numa ‘la chaise’, (aquela cadeira esquisita de  acrílico branco que tem um  furo no meio, criada por Charles & Ray Eames e que foi febre de design  nos anos 50),  já vale o ingresso!

Sou fã de Kristin Chenoweth há muitos anos! A primeira vez que a vi foi  fazendo Sally em ‘You´re a Good Man, Charlie Brown’, musical que lhe rendeu o Tony e todos os prêmios daquele ano. Mas virei fã incondicional mesmo quando a vi fazendo ‘Candide’: sua Cunegonde era hilária e hipnotizante. Ela dividia as atenções em cena com ninguém menos que Patti LuPone, no papel da Velha Senhora. A partir daí venho acompanhando de perto seus sucessos, sendo o mais cultuado de todos o personagem Glinda no musical mega ‘popular’ (desculpem o trocadilho)  ‘Wicked’.

Na TV tem feito muitas coisas e chegou a ter um show com seu nome: “Kristin”. Ganhou um Emmy por “Pushing Daises”, mas ambos os projetos não foram muito longe.  Participou do elenco de Vila Sésamo e  atualmente está no elenco do fenômeno Glee. É uma comediante de mão cheia e uma atriz de voz característica. Adoro esse tipo de voz, muitas vezes rejeitado no Brasil, pois nós brasileiros amamos mesmo as mezzo-sopranos de voz ‘gorda’ ou sopranos dramáticas. Acredito que seja algo cultural, já que nossa MPB recente é, em sua quase totalidade, um enxame de vozes graves. Voz característica, tão normal e apreciada no musical americano, ganha entre nós o apelido de “voz de pato”! Há dezenas de papeis em musicais para essa cor vocal e muitos são de protagonistas. Exemplos de grandes nomes que levaram multidões aos teatros não faltam, sendo talvez a mais cultuada de todas a grande Shirley Booth, que nos anos 50/60 foi uma estrela na Broadway e arrebatava multidões aos musicais que estrelava. Bernadette Peters e Faith Prince são outras estrelas atuais com registros vocais similares. Particularmente,  adoro. Não sou exatamente um fã incondicional das atrizes que gritam seus pulmões como leitoas sendo assassinadas no Natal, mas sei que o público jovem em geral as ama.

Mas digo tudo isso para arrematar dizendo que fiquei decepcionado com Kristin em Promises, Promises. Esse show realmente não é para ela. Está apagada no papel da mocinha, e a apesar de haverem incluído no score duas canções famosíssimas de Burt Bacharach que não faziam parte do espetáculo original  (I Say a little Prayer e A House is not a Home) que são solos para ela, Kristin tem pouco a fazer no papel da amante do Patrão.

Mesmo assim ela ainda é uma delícia em cena, especialmente  cantando (em duo com Hayes) o mega hit I’ll Never Fall in Love Again (este sim, escrito originalmente para o musical) no sofá com um violão, num momento totalmente bossa nova.

Acho que o grande problema de Kristin ultimamente é sua aparência: ela tem apenas 42 anos e parece ser tão dependente do botox que está quase se transformando  numa boneca de borracha. Muito  magra, parece anoréxica, e se não fosse a peruca, a gente mal sabe se ela está de frente e ou de lado. E seu bronzeamento artificial lhe dá um tom Malibu meio alaranjado, quase cor de tijolo, tá estranho! Realmente é complicado envelhecer dentro desta  indústria. Espero que ela não se afunde nessa loucura de retocamentos infindáveis, pois é genial e quero poder vê-la muitas vezes  ainda sem ter a impressão de que  estou vendo um duende. Por uma louca coincidência, no dia em que assistimos ao espetáculo estava sentada perto de nós a própria  Bernadette Peters, que citei há pouco. Tão baixinha quanto Kristin e bem mais velha, mas ao que parece levando a idade com mais dignidade e sabedoria.

Pra concluir, quem rouba a peça de Kristin é Katie Finneran, num papel episódico no segundo ato, mas transforma sua entrada em momentos hilariantes e espetaculares. Com uma voz poderosa, faz uma bêbada com seu casaco de pena de coruja antológica. Realmente a mulher é um monstro de talento, e os melhores momentos da peça são dela e de Sean Hayes. Ambos estão indicados ao Tony em suas categorias, além de vários outros prêmios da temporada.

Promises, Promises cumpre o que promete:  é um musical super divertido, adorável de ver, e traz de volta aos palcos um score sensacional de Burt Bacharach, o único que ele escreveu para um musical da Broadway.

Créditos das Fotos:

* http://promisespromisesbroadway.com
* Sara Krulwich/The New York Times
* Playbill.com

Autor: - Categoria(s): Colaboradores, Críticas Tags: , , ,

Ver todas as notas

Os comentários do texto estão encerrados.

Voltar ao topo