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28/06/2010 - 14:01

Alberto Guzik escreveu sobre os 50 anos do Teatro Oficina

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O queridíssimo Alberto Guzik

Tive a honra de contar com a participação de Alberto Guzik nos primórdios do Aplauso Brasil, e, numa humilde homenagem de quem admira e se desespera com a impressão de que podia fazer mais, re-publico o que, considero uma pérola, dentre tantas que produziu, em que escreveu sobre os 50 anos do Teatro Oficina. Evoé, Alberto!

Zé Celso: Trajetória de coerências e inquietações

Alberto Guzik, especial para o Aplauso Brasil

Ver os trabalhos de Zé Celso Martinez Correa tem sido para mim, como para muitos outros espectadores, ao longo dos últimos quarenta e tantos anos, um caminho de aprendizado traçado na coerência.

O projeto que, desde sua criação – em fins dos anos 1950 – na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, vem sendo executado pelo teatro Oficina e por seu mentor, Zé Celso (José Celso Martinez Corrêa), impressiona pela organicidade que extrai da diversidade.

Não apenas em tempo, mas principalmente na estética, longo foi o caminho que levou do teatro ao te-ato, do Teatro Oficina para a Cia. Uzyna Uzona, da sala bem comportada de platéias convergentes, transformada depois em um teatro italiano, para o corredor da pista concebida por Lina Bo Bardi e Edson Elito, que liga o ato teatral ao bairro, à cidade.

O germe da inquietação esteve sempre presente em todos os trabalhos realizados pela trupe.

Não vi as primeiras montagens do Oficina. No tempo de A Incubadeira e Vento Forte para Papagaio Subir, de Zé Celso, Fogo Frio, de Benedito Ruy Barbosa, A Engrenagem, de Sartre. Não sabia nada sobre a companhia de estudantes/ atores. A primeira montagem que vi no prédio histórico da rua Jaceguai, que antes chamava-se Teatro Novos Comediantes, se a memória não falha, foi um texto de Augusto Boal, José do Parto à Sepultura, com direção de Antônio Abujamra.

Vieram montagens extraordinárias uma atrás da outra: A Vida Impressa em Dólar, de Clifford Oddets, Um Bonde Chamado Desejo, de Tennessee Williams, Todo Anjo é Terrível, adaptada de um romance de Thomas Wolfe, Quatro Num Quarto, comédia russa de Valentin Kataiev, e finalmente, em 1963, uma obra-prima, Pequenos Burgueses, de Górki.

Foi a primeira montagem da fase de grande maturidade do Oficina, que seria seguida por outra obra de Górki, Os Inimigos, e depois por Andorra, de Max Frisch, O Rei da Vela, de Oswald de Andrade, Galileu Galilei e Na Selva das Cidades, de Bertolt Brecht, entre outras.

A idéia, desde aquele início, era refletir sobre o ser humano, sobre a sociedade brasileira. Idéia que foi se intensificando, se aprofundando com experiências radicais, como a tentativa de colaboração com o Living Theatre e uma longa viagem pelo Brasil com o repertório da companhia.

Na medida em que o Oficina radicalizava sua linguagem, a imagem de companhia teatral bem vista pela crítica e pela platéia burguesa foi se alterando sensivelmente. O teatro começou a entrar em terreno cada vez mais provocativo. E Zé Celso sintetizou essas experiências em seu grupo com a montagem de Gracias Señor, uma performance, um happening em que o Brasil da ditadura era visceralmente questionado.

Essa primeira fase, que inclui uma passagem de Zé Celso pelo Rio de Janeiro, onde criou a polêmica Roda Viva, de Chico Buarque de Hollanda, encerrou-se com uma turbulenta e não bem resolvida produção de As Três Irmãs, de Anton Tchekhov, no início dos anos 1970.

Depois, o Oficina original esfacelou-se, a companhia acabou. Zé Celso partiu para a Europa. O teatro durante bom tempo foi alugado. Até que nos anos 1980 Zé voltou a São Paulo, retomou a sala, demoliu a construção ali existente e passou a lutar feito leão pela concretização do espaço concebido por Lina Bardi.

Só na década de 1990 o projeto saiu do sonho para a prática e iniciou-se então uma nova fase, com As Boas, versão de As Criadas, de Genet, Ham-let, de Shakespeare, As Bacantes, de Euripedes, Mystérios Gozosos, de Oswald de Andrade, Ela, de Jean Genet, e mais O Boca de Ouro, de Nelson Rodrigues, Cacilda! e Os Sertões, de Zé Celso.

Agora, em meio à produção da tetralogia da obra de Euclides da Cunha, pode-se perceber que Zé Celso continua tentando entender o ser humano, o país em que vive, o mundo que o circunda, com a mesma determinação, a mesma fúria, o mesmo gênio que vem desde sempre norteando sua trajetória.

Não é um artista fácil nem tem paciência de estabelecer pactos com os donos do poder. Seu teatro ritualizou-se cada vez mais, abandonou o realismo para enveredar por um crescente teatralismo. Mas o foco, as questões que dizem respeito à intolerância, à repressão, à injustiça, continuam a pavimentar o terreno sobre o qual o diretor e sua equipe se movimentam.

Tem sido realmente um privilégio poder acompanhar ao longo de décadas o trabalho desse criador único, especial, um dos mais prolíficos e importantes da história do teatro brasileiro.

Autor: - Categoria(s): Artigos, Resenhas e Crônicas, Colaboradores Tags: , , , , ,

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