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28/06/2010 - 01:34

Luiz Valcazaras e o corte seco de Plínio Marcos com Boca de Baco

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Michel Fernandes, do Aplauso Brasil (michel@aplausobrasil.com)

"Navalha na Carne" - Crédito: Milton Dória/ Divulgação

Desafio apresentar um texto como Navalha na Carne (1967), do consagrado santista Plínio Marcos, com tantas montagens já feitas e cheia de predicados, mas o espetáculo dirigido por Luiz Vacazaras que marca os 20 anos do grupo londrinense Boca de Baco, traz o frescor de lâmina precisa que dá corte seco em seu alvo.

A trama do triângulo que coloca os personagens hora no papel de opressor hora de oprimido, ganha uma concepção com ritmo acelerado, em que a ação alcança o clima, ao mesmo tempo, claustrofóbico, violento e miserável em que os personagens estão imersos.

Ao ambientar o quarto da prostituta Neusa Sueli numa espécie de desmanche de carros, Valcazaras atualiza simbolicamente o espaço, elevando o espaço além das características realistas. Um desmanche é um lugar marginal por excelência, cenário perfeito para o embate entre Vado, Neusa e Veludo.

A direção de atores segue a linha concisa, econômica do espetáculo, sem cores carregadas tingindo as emoções, o que evita o maniqueísmo das personagens.

Nivaldo Lino, Poka Marques e Jackeline Seglin em "Navalha na Carne" - Foto Studio Milton Dória

A interpretação de Jackeline Seglin, como a prostituta Neusa Sueli, é exemplo claro da horizontalidade exigida e conseguida nesse tipo de papel. Ela é a cruel torturadora de Veludo, ameaçando-o arrancar seus olhos com a navalha, é a amante humilhada e feroz que ameaça castrar seu homem caso ele não atenda seu desejo sexual e é a tola apaixonada que se deixa seduzir pelo cafetão explorador. Para depois acabar comendo um sanduíche num pão amanhecido recheado com mortadela. Tão seco. Tão dolorido.Tão solitário. Tão verdadeiro. Afinal, todos os humilhados e traídos pelos mais fortes acabam nessa cruel dor solitária.

Poka Marques, na pele do homossexual Veludo, aproveita seus breves momentos em cena para conquistar a empatia de todo o público, já o Vado, de Nivaldo Lins, não atinge mais que o necessário para não comprometer o espetáculo. Nivaldo precisa ater-se em aprimorar seus instrumentos vocais, sobretudo as modulações de palavras e equalização da respiração, além de eliminar a tensão corporal.

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