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11/07/2010 - 05:40

In On It desvela o processo de criação teatral

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Kiko Rieser, especial para o Aplauso Brasil (kikorieser@aplausobrasil.com)

IN ON IT no Teatro Eva Herz até 1º de agosto

In on it não é um espetáculo assinado pela Cia. dos Atores, mas poderia muito bem sê-lo. É dirigido por Enrique Diaz, diretor e fundador da Cia., e tem atores e iluminador que já participaram de diversos espetáculos do grupo carioca. Mas, mais importante, In on it se encaixaria perfeitamente (ainda que trazendo novidades) no percurso que a Cia. desenvolve há mais de vinte anos.

Basta ver as obras de seu repertório para notar que se tratam de trabalhos com enorme coerência estética entre si, pertencentes a um programa artístico dos mais bem definidos entre os grupos brasileiros. O nome da Cia. já evidencia um pouco da práxis a que ela se propõe: refletir sobre o ator, sua condição dentro do processo de criação de um espetáculo, seu trabalho sobre um texto teatral pré-existente e sua ação sobre o mundo.

Texto do canadense Daniel MacIvor inédito no Brasil

São comuns, em sua trajetória, textos que já tratam em alguma medida do ator (caso de A Gaivota) ou do ato de simular aparências (como Hamlet), sendo vertidos pela Cia. para terem o teatro e o ator como focos, e recebendo na encenação outras camadas de metalinguagem que se relacionem com o material original e com a experiência real dos atores.

In on it, peça do canadense Daniel MacIvor, já tem em si diversas camadas de metalinguagem, o que faz com que a montagem de Enrique Diaz dispense adaptações substanciais, e talvez seja esse o motivo de não receber o nome da Cia.

Se os trabalhos do grupo buscam refletir sobre como o ator se relaciona com um texto pronto, In on it trata de um ator que está escrevendo o que, aparentemente, é sua primeira peça.

A obra de MacIvor busca mais entender o ofício do dramaturgo que o do intérprete e, por isso, provavelmente seja enriquecedor também como experiência para os próprios artistas envolvidos no espetáculo, fazendo-os entender melhor o processo de escritura das peças que, nas montagens da Cia., são recriadas por eles.

No texto, não é tão importante o fato de o novo dramaturgo ser um ator. É também um fator de ocasião, pois permite que ele e outro ator encenem sua peça conforme ela vai sendo escrita, exigindo apenas duas pessoas no elenco da montagem da peça de MacIvor (em todas as cenas há apenas duas personagens).

A trama se fundamenta em três tempos: o presente, em que ele debate com o outro ator acerca do processo – em curso – de escritura da peça e rememora fatos antigos; o passado, época em que os dois se conheceram, tornando-se namorados e depois companheiros, culminando com a separação; e o tempo da ficção, com a encenação da peça que a personagem escreve.

Fica claro, ao longo do espetáculo, que a peça que o ator escreve é uma forma de expurgar a dor pelo fim do relacionamento entre as duas personagens. São sutis os pontos de contato que vão sendo revelados, como pequenas manias do ex-amante que são transferidas para personagens secundárias da sua dramaturgia.

Como a maioria dos escritores, ele escreve sobre si e sobra sua própria experiência, mas sem que isso torne sua história hermética ou personalista a ponto de ser desinteressante a terceiros.

Sua metáfora da separação é a morte, através de seu protagonista, Raymond, um doente terminal. Não é uma solução do artista para culpar o ex-namorado ou jogar-lhe verdades na cara, mas uma forma de superação, entendendo o fim como um novo início. Deste modo, Raymond, ao se ver relegado a segundo plano pela família em dissolução, deixa sua herança para Loyd, o pequeno garoto que é abandonado pelo pai e pelo padrasto. Tudo é composto de ciclos e, assim, fica mais fácil compreender o fim de uma relação que nos é mostrada, desde o início, com diversas fricções e animosidades entre os dois.

Raymond diz algo como “do meio do círculo, não se pode ver o círculo todo de uma só vez”. É necessário distanciamento para assimilar algo em sua completude, e o ator-dramaturgo faz isso através de sua peça.

Esse jogo entre a ficção e a realidade, alternantes nos três tempos da peça, é ressaltado pela encenação de Enrique Diaz. O ambiente é composto a partir de uma exposição da maquinaria teatral, diluindo os limites entre encenação e vida, com camarins expostos e cenário praticamente ausente, formado apenas por dois cubos, duas cadeiras e uma espécie de tapete.

Ao mesmo tempo em que os limites entre as várias camadas do espetáculo são tênues, há uma preocupação com a clareza e, por isso, a iluminação de Maneco Quinderé é bem demarcada para cada uma das três épocas e, enquanto os planos da realidade (o presente e o passado) têm uma encenação mais despojada e realista, a peça do ator-dramaturgo é austera, com rigor nas marcações de cena, isolando sempre os interlocutores em pólos opostos do palco. Ainda assim, o caráter lúdico não se perde e os atores permanecem numa espécie de rotação constante, mantendo a instabilidade do jogo.

Os dois intérpretes, Fernando Eiras e Emílio de Mello, cumprem a árdua tarefa de se revezar entre um sem-número de personagens, demarcando claramente a diferença entre eles.

Parece incompreensível, no entanto, que as personagens femininas sejam representadas de modo caricato e afeminado, se assemelhando mais ao estereótipo de homossexuais afetados do que a mulheres de fato, o que fica deslocado diante das outras composições, todas permeadas por um tom melancólico que evidencia que não são fáceis os ritos de passagem que o espetáculo retrata. As personagens que compreendem melhor esses ritos, como Raymond e o autor da peça dentro da peça, demonstram mais doçura no trato com as outras e são mais calmas, pacientes, centradas. As outras personagens, que ainda não lidaram diretamente com o fim, ainda são mais ríspidas, agitadas, e usam sarcasmos como forma de ataque por não saberem se defender.

Essa diferença fica explícita por uma proposição da montagem: ao encenar a peça que está sendo escrita, os dois personagens-atores se revezam nos papéis. Especialmente nas interpretações de Raymond, ficam evidentes a dor e a maturidade quando representado pelo dramaturgo (Eiras), enquanto há um desespero quase infantil quando representado por seu ex-namorado (Mello).

Deste modo, o trabalho de Enrique Diaz (bem como o de seus companheiros nesta empreitada) amplia seus horizontes, ao falar diretamente sobre dramaturgia, mas não deixa de contemplar a reflexão sobre aqueles que dão nome à Cia. da qual é fundador.

IN ON IT

Horário: Sexta e sábado, 21h; domingo, 18h.

Data: 7 de maio a 1º de agosto de 2010.

Preços: R$ 40,00 (sexta) e R$ 50,00 (sábado e domingo).

Duração: 1h30

Local: Teatro Eva Herz

Endereço: Avenida Paulista, 2073, Conjunto Nacional – Consolação

Tel: (11) 3170-4059

Foto: divulgação.

Autor: - Categoria(s): Colaboradores, Críticas Tags: , , , , , , , , ,

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