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24/12/2010 - 15:12

O teatro de Machado de Assis reunido em um só livro

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Luis Fabiano Teixeira, especial para o Aplauso Brasil (aplausobrasil@aplausobrasil.com)

Livro reúne peças de Machado de Assis

Ninguém discute que Machado de Assis é o maior escritor brasileiro, mas pouco ou quase nada sabemos sobre a sua dramaturgia, fase em que ele ainda não tinha pleno domínio do seu ofício. Foi no teatro que o Bruxo do Cosme Velho debutou, aos vinte anos, antes de se tornar um escritor consagrado e repleto de obsessões (a dúvida e o ciúme são as mais famosas). O fato de ser reconhecido como exímio romancista e contista apenas ofuscou o dramaturgo, mas o livro “Teatro de Machado de Assis”, edição organizada por João Roberto Faria, tenta, ao menos, lhe fazer alguma justiça. O volume traz onze peças que revelam esse “ensaio geral” da literatura machadiana e que merece ser conhecido.

Dentre as várias “alquimias” dramáticas do livro, as comédias merecem atenção especial, pois já esboçam uma das características mais marcantes do escritor: a ironia.

A primeira delas, Hoje avental, amanhã luva (1860) é o melhor exemplo de dinâmica de cena, onde cada palavra parece ter sido escolhida para compor cada diálogo. As frases reticentes e o sentido das entrelinhas, somado à ambigüidade em função do contexto, permitem o desenvolvimento de um diálogo leve e envolvente. Imitada do francês, a peça revela também que até o jovem Machado sucumbiu à “angústia da influência”. O foco é a esperta criada Rosinha, que arquiteta um plano para “fisgar” Durval, pretendente à mão da sua patroa, Sofia de Melo. Machado critica com leveza o casamento por interesse, uma prática muito comum na época. O próprio título ilustra o poder doentio que o dinheiro exercia sobre as pessoas.

Em Desencantos (1861) o tema anterior se desdobra no duelo entre “amor romântico” versus “amor mercantil”. Em cena estão a viúva Clara e seus dois pretendentes, Pedro Alves e Luís Mello. Enquanto o primeiro é racional, o segundo é romântico e sonhador. Ficamos conhecendo qualidades e defeitos de ambos, mas o que se supõe um combate para ganhar o coração da viúva não passa de uma disputa cordial e cavalheiresca. No entanto, o final surpreende. Os costumes da alta sociedade fluminense não escapam ao já ácido senso de humor machadiano.

"O Teatro de Machado de Assis", organizado por João Roberto Faria, ed. Martins Fontes

Já em Tu só, tu, puro amor (1880) Machado faz uma homenagem ao legado de Camões à língua portuguesa. Os costumes da Corte são representados de forma minuciosa, porém, nem mesmo o poeta lusitano foi poupado de suas críticas. Em determinado momento, Camões é ironizado por outro personagem histórico, Pero Vaz de Caminha, por ser um homem de “muitos amores” e “poucos versos”. Resta saber como os portugueses reagiram, na época.

A partir do século 19, muitas peças como Lorenzaccio e Um espetáculo numa poltrona, de Alfred Musset (1834), não foram concebidas para a encenação, o que não quer dizer que devam ser também condenadas ao ostracismo, apenas ficaram no meio do caminho, entre um gênero e outro. Quintino Bocaiúva sabia bem disso e não escondeu as suas impressões do próprio Machado: “As tuas comédias são para serem lidas e não representadas” – escreveu numa carta. O teatro machadiano pode até não ganhar os palcos, pela falta de fôlego dramático e originalidade, mas é inegável o esforço do seu jovem dramaturgo em captar os impulsos do ser humano e devolvê-los em forma de refinadas comédias.

Livro
Teatro De Machado De Assis
Idioma
Português
Assunto
Artes-Teatro
Ano
2003
Tipo de capa
BROCHURA
Páginas
604
Edição
1
ISBN
8533617658
Editora
Martins Fonte
Autor: - Categoria(s): Artigos, Resenhas e Crônicas, Colaboradores Tags: , , , , , , , , ,

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