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25/02/2011 - 14:39

Rasgo poético no rito de passagem

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Alessandra Negrini e Joaquim Lopes em "A Senhora de Dubuque"

Crítica de Michel Fernandes para a peça A Senhora de Dubuque publicada na edição impressa do Diário de São Paulo de 22 de fevereiro de 2011.

Obsessão do autor Edward Albee, ou simplesmente a busca desesperada que satisfaça a eterna interrogação “quem somos?”, é o barco que conduz A Senhora de Dubuque para um poético rito de passagem.

Sob a capa do coloquialismo naturalista, em que amigos se reúnem na casa do casal Jo (a convincente Alessandra Negrini) e Sam (Joaquim Lopes, em interpretação excelente) – à beira da morte pela debilidade causada por uma doença terminal –, símbolos de extremada beleza poética emergem dando toques metafísicos e atemporais ao que é apresentado como possível cópia do mundo real.

Há, também, sutis rompimentos formais na estrutura do texto de Albee como os comentários das personagens dentro da cena, ou seja, a quebra do discurso dramático convencional para o diálogo personagem-plateia, colocando o público no papel de interlocutor que participa ativamente da cena como uma espécie de cúmplice da personagem.

Elenco de "A Senhora Dubuque"

Um jogo de adivinhação do gênero “quem é você?” abre o espetáculo e, paulatinamente, serve para desenhar o caráter daquelas personagens em busca da própria identidade, mesmo navegando sem o leme de auto-conhecimento. Assim, meio a esse jogo, sabe-se que a reunião entre amigos é quase que uma despedida de Jo, ou, como é típico dos que enxergam no outro uma deficiência evidente, a possibilidade de sublimação dos próprios fantasmas diante do naufrágio alheio. O cruel sarcasmo de Jo torna o jogo numa  insuportável troca de farpas e Lucinda (Patrícia Pichamone) verbaliza o que já era fato em troca de olhares, paciência e delicadeza quase que artificiais etc. – “LUCINDA (não tão bondosa) – Eu perdôo você, porque sei que a dor deve ser terrível.”

Quando sozinhos, Sam e Jo, esta tomada por insuportável dor física, a cena preenche-se de delicadeza, o amor entre os dois toma um relevo de intensa suavidade poética que evidencia a relação de companheirismo entre ambos, onde o pesar do porvir trágico, anunciado como desfecho de Jo, cresce proporcionalmente.

Karin Rodrigues e Alessandra Negrini

O Caronte de A Senhora de Dubuque, ou seja, o barqueiro que conduz o espetáculo ao subterrâneo de Hades (deus grego dos mortos), é o ator Leonardo Medeiros que, depois de um hiato de 10 anos como diretor (ele passou o período dedicado a sua carreira de intérprete), extrai do texto de 1977-1979 o sumo para criar sua escrita cênica. De maneira bastante sutil ele consegue um equilíbrio bastante interessante entre distanciamento (comentários narrativos dos personagens para o público) e mergulho nas emoções/ argumentações das personagens nas cenas consideradas dramáticas, ou seja, aquelas dialogadas.

Passada a noite apocalíptica, eis que se instalaram na casa de Sam e Jo, Elizabeth e Oscar, respectivamente Karin Rodrigues e Edson Montenegro, em criações marcantes, temperadas à dupla cômica. Ela diz ser mãe de Jo – a qual a filha reclama a eterna ausência – o que é posto em xeque por Sam e validado pelos mesmos amigos do casal que estavam na cena inicial – Carol (Carolina Manica), Edgar (Luciano Gatti), Fred (Sérgio

Texto, inédito no Brasil, de Edward Albee

Guizé) e Lucinda (Patrícia Pichamone) – o que gera um conflito tratado por Elizabeth e Oscar com ironia e humor ácido conduzidos com maestria pelos atores.

Mas, afinal, quem é o casal misterioso que chega ao lar de Sam e Jo? Elizabeth seria mesmo a mãe de Jo? Seriam ambos invasores sem serem convidados? Seria Elizabeth a representação do útero sagrado que torna-se mortalha sagrada e surge para conduzir, feito Caronte, ao Mundo dos Mortos? Afinal, quem são vocês? Quem somos nós?

O melhor de A Senhora de Dubuque é a ausência de uma resposta concreta. Isso nos leva a sair do Teatro Paulo Autran (SESC Pinheiros) com a inquieta auto-interrogação: afinal quem, realmente, somos?

“A Senhora de Dubuque”

SESC Pinheiros. Teatro Paulo Autran. Rua Paes Leme, 195.

Temporada: até 06 de março

Sextas e sábados, às 21h e domingos às 18h

Duração: 120 minutos (sem intervalo)

Indicação de faixa etária: 14 anos

Capacidade: 700 lugares

Ingressos: R$ 32,00 (inteira); R$ 16,00 (usuário matriculado no SESC e dependentes, maiores de 60 anos, estudantes e professores da rede pública de ensino) R$ 8,00 (trabalhador no comércio e serviços matriculado no SESC e dependentes)

Horário de funcionamento da Unidade – Terças a sextas, das 13 às 22h.

Sábados, domingos e feriados, das 10h às 19h horas.

Horário de funcionamento da Bilheteria: Terça a sexta das 10h às 21h30.

Sábados das 10h às 21h30, domingos e feriados das 10h às 18h30.

Telefone para informações: (11) 3095-9400

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3 comentários para “Rasgo poético no rito de passagem”

  1. […] This post was mentioned on Twitter by michel fernandes and michel fernandes, LuizFernando Almeida. LuizFernando Almeida said: RT @aplausobrasil: No blog: Rasgo poético no rito de passagem http://bit.ly/igiRGJ […]

  2. Michel:
    Sublime sua crítica A Senhora de Dubuque: as perguntas soltas q fazem o espectador sair do teatro reflexivo
    foram realçadas em seu texto!
    Parabéns!
    abr
    Maurício

Os comentários do texto estão encerrados.

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