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28/06/2011 - 21:33

Um monumento a Dostoiévski – Parte 1

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Michel Fernandes, do Aplauso Brasil (Michel@aplausobrasil.com)

Crítica de Michel Fernandes ao espetáculo “O Idiota” – Parte 1

"O Idiota - Uma Novela Teatral"

Considerado um dos cânones da literatura ocidental, o romance O Idiota, do russo Fiódor Dostoiévski, tem monumental tradução teatral assinada por Cibele Forjaz, aliando qualidades excepcionais de interpretação a soluções cênicas que preenchem a cena estabelecendo um rico diálogo entre as escritas que compõem o todo do espetáculo: utilização artesanal do espaço cênico como se fora uma instalação cenográfica; encenação preocupada em preencher de significados cada elemento, prenhes de simbologia, num prolongamento das possibilidades poéticas evocadas pela peça; um desenho corporal que reforça o desequilíbrio das personagens; o desejo dos intérpretes em atingir, ao mesmo tempo, uma atuação sincera, dinâmica e estilizada; a partitura musical a dialogar o tempo todo com a dramaturgia da cena, enfim, uma riqueza tão elevada de elementos que se nos apresenta que, ao final dos dois dias de representação em que a peça é realizada, resta o desejo de retornar e assistir de outros ângulos.

A divisão do espetáculo em três capítulos, se preferir três atos, estabelece entre público e evento teatral um pacto desafiador. O primeiro dia da representação – que encerra em si o primeiro capítulo que compõe essa epopeia teatral – introduz o espectador naquele universo que caminha pela corda-bamba da sinceridade em se expor o que se pensa, de fato, e a representação do que se sente, como se assim, garantissem a máscara social que julgam ser a mais adequada.

Nessa toada, ao entrarmos no galpão-instalação daquele universo que delineia surpresas vindouras, visualizamos a transmutação dos atores em personagens o que estabelece o pacto entre espaço real, de onde vem o público, para espaço ficcional, em que decidiu se inserir. Em fragmentos de textos, músicas, ações, os atores espalham rastos de Nastássia, Agláia, Kólia, Lisavieta, e  os demais personagens que farão o núcleo central do espetáculo.

O primeiro episódio, da auto-intitulada novela teatral em três capítulos, ocorre dentro do trem que  traz o Príncipe Míchkin (Aury Porto em delicada e minimalista composição) da suíça, onde se tratava da epilepsia, e faz com que alguns dos protagonistas se encontrem pela primeira vez. Por ser uma instalação que representa um trem, público e personagens dividem as poltronas e embarcam juntos ao destino de Míchkin. No trem, Míchkim conhece Ragôjan (Sérgio Siviero, excelente no papel do grotesco novo rico), que acaba de receber uma vultosa herança de seu falecido pai. A empatia entre ambos tornam os dois, desde então, amigos.

Da estação de trem, o príncipe vai para a casa de Lisavieta (Sylvia Prado, como sempre, visceral e de pungência transparente), sua parenta distante que se encanta com a simplicidade, doçura e sensibilidade refinada de Míchkin. Lá conhece, também, Gánia (Silvio Restiffe), empregado de Lisavieta que está à espera da decisão de Nastássia Filippovna (a estonteante Luah Guimarãez), com quem deseja se casar para receber um dote de 75 mil rublos, e Aglaia (Lúcia Romano, cujo real talento pode ser conferido na segunda parte de O Idiota), filha de Lisavieta, mais interessada nas aparências do título principesco de Míchkin que em sua essência humana.

Até esse ponto do espetáculo ainda é possível manter o jogo de aparências entre as personagens, embora, à medida que as cenas avançam, a tentativa de esconder o que realmente motiva os seres ficcionais de O Idiota se torna a cada segundo mais complicado. Sem lugar para ficar, Míchkin aceita o convite de Gánia para ser inquilino de sua casa.

"O Idiota - Uma Novela Teatral"

Lá, o príncipe conhece o general Ívolguim (Luís Mármora em criação que condensa todas as grotescas figuras paternas que povoam a obra de Dostoiévski) que o reconhece – foi amigo de seus falecidos pais –, além de Kólia (Fredy Allan que alcança empatia crescente desejável ao desempenho exato do papel).

Notável é a cena em que o general relembra sua falecida mulher e a mesma é representada por Sylvia Prado como uma espécie de retrato tridimensional, cuja vestimenta tem cor que se confunde à da parede dando um magnífico efeito plástico-simbólico da presente, mesmo que espectral, figura da falecida. Ainda na instalação-casa de Gánia, Nastássia chega para convidar a todos para seu aniversário.

Surge Ragôjan,  seguido do interesseiro amigo Lhêbediev (Vanderlei Bernardino que no segundo dia de representação tem salto qualitativo surpreendente), e oferece 100 mil rublos para passar uma noite com a provável “noiva” de Gánia.

A queda do mundo das aparências

O último episódio-instalação desse “capítulo” é a casa de Tôtski, no aniversário de Nastássia, quando ela dirá se aceita ou não se casar com Gánia, mas Ragôjan invade a festa com os cem mil rublos em punho e o pedido de casamento à aniversariante que, ainda, é pedida em casamento por Míchkin.

A questão dessa parte do espetáculo traz em si a súmula temática que permeia toda a obra: o caos reina no paradigma das relações pessoais e, nessa falta de solidez humana, a unidade da certeza é de que tudo é incerto.

A pose alto-burguesa que Nastássia sustentou  na casa de Gánia, sempre observada com desconfiança pelo general Ívolguim e Kólia, respectivamente pai e irmão caçula de Gánia, se revela máscara decaída pela amarga constatação de que é tão-somente mercadoria exposta à venda por Tôtski, que almeja livrar-se da pupila, depois amante, para que não sinta culpa, já que vai se casar e a deixar. Sendo  assim, Fillipovna coloca para fora toda sua ira por sentir-se mercadoria e comove-se, sobremaneira, com a declaração de amor desinteressado que o príncipe Míchkin lhe faz. O que ainda resta de humanidade em Nastássia faz com que ela recuse o pedido de casamento de Míchkin, a quem considera puro demais para sujar-se com o mundanismo reinante dos tempos.

Paira no ar, enquanto Tôtski se despede do público, tratado como convidado da fatídica festa de aniversário, um aroma acre e árido que será solo para o segundo dia de representação.

*A crítica é a partir da perspectiva de quem assiste O Idiota em dois dias

Ficha Técnica resumida

Direção: Cibele Forjaz
Texto: Fiódor Dostoiévski
Cenário: Laura Vince

Trilha Sonora: Otávio Ortega
Elenco: Aury Porto, Fredy Allan, Luah Guimarãez, Lúcia Romano, Luís Mármora, Sergio Siviero, Silvio Restiffe, Sylvia Prado, Vanderlei Bernardino
Indicação:
Maiores de 14 anos

O Idiota

Espaço Tom Jobim. Rua Jardim Botânico, 1.088. Jardim Botânico. Rio de Janeiro. Tel. (21) 2274-=7012. 70 lugares. Segundas e terças-feiras, espetáculo completo com dois intervalos (duração de 6h30), às 17h30. Sábados (Parte 1), 17h30, e domingos (Parte 2 e 3), 17h30.R$20 a R$60. http://oidiotateatro.blogspot.com/

Autor: - Categoria(s): Críticas Tags:

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