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28/06/2011 - 22:31

Um monumento a Dostoiévski – Parte 2

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Michel Fernandes, do Aplauso Brasil (Michel@aplausobrasil.com)

Crítica de Michel Fernandes ao espetáculo O Idiota – Parte 2

"O Idiota - Uma Novela Teatral"

O segundo dia dessa imersão ao universo de O Idiota e, por consequência, ao de Dostoiévski, concentra o segundo e terceiro capítulos desta “novela teatral” e inicia com um inquieto desfile dos atores em busca de seus personagens. Depois de acomodado o público, os atores dirigem-se para seus desnudos nichos-camarins e, como na primeira noite, soltam fragmentos de frases, trechos de canções, realizam pequenas ações físicas. Só que desta vez o público já criou laços de simpatia, admiração, estranhamento e outras sensações em relação àquelas personagens e consegue enxergar, nesses fragmentos de vida, minúcias que no primeiro dia de O Idiota passaram despercebidas.

Cabe à Sylvia Prado a tarefa de resumir os acontecimentos da noite anterior, o que faz com clareza e talento, situando até o espectador que deixou passar alguma informação que seja relevante para a compreensão total do espetáculo. O recurso narrativo adotado por Cibele Forjaz foge ao lugar-comum da ação de resumir, importando, também, um desenho cênico que se assemelha ao processo de rebobinar um filme para voltar a assisti-lo.

A sequência de cenas posteriores ganha a verve poético-filosófica num diálogo exuberante em que temas como a religiosidade, a inveja, o apego pelo dinheiro, o desejo mundano, as incertezas do amor e, sobretudo, a transmutação de todas as paixões humanas na singela e pura compaixão dão o tom de bela coreografia que mescla belas imagens a ideias de riqueza inimaginável.

A cena passada na casa de Ragôjan (Sergio Siviero), quando Míchkin (Aury Porto) vai visitar o amigo e pedir que este não o considere um rival, pois nesse tempo que viveu com Nastássia (Luah Guimarãez), descobriu que o que imaginava ser amor é, simplesmente, paixão. Os laços fraternos de amizade desinteressada que já se esboçava na primeira cena do primeiro dia de representação são reforçados nesta cena que é de humanidade despudoradamente bela.

Quando Míchkin deixa a casa de Ragôjan, depois da acalorada e poética cena em que questionam a existência e o significado de Deus, trocando os dois, inclusive, amuletos de proteção, dá-se a sequência onírica que antecede o ataque epiléptico do príncipe, em que personagens que povoam o universo da imaginação e aqueles mais próximos da realidade cotidiana. Dentre os personagens dessa alucinação onírica está a Besta do Apocalipse (personagem interpretado com total força e exuberância por Vanderlei Bernardino) que narra trechos do livro bíblico do Apocalipse, mesclado a elementos da vida profana entre Ragôjan e Nastássia, entre outros. No meio desses episódios, Ragôjan surge para esfaquear Míchkin, porém desiste frente ao impacto da crise epilética do príncipe.

"O Idiota - Uma Novela Teatral"

O excessivamente zeloso Lhêbediev (Vanderlei Bernardino, mais uma vez em vigorosa atuação) leva o, doravante, amigo, Míchkin para passar o verão em Pávlovski e aproximá-lo de Nastássia e Aglaia (Lúcia Romano), filha de Lisavieta (Sylvia Prado) e de quem, Lhêbediev acredita, o príncipe esteja enamorado.

O clã do general Ívolguim (Luís Mármora), formado pelos excelentes Freddy Allan e Sílvio Restiffe, respectivamente, Kólia e Gánia, além de Lisavieta e Aglaia – mãe e filha- visitam Míchkin na casa de veraneio, mas eis que revoltado com a récita do poema “O Cavaleiro Pobre”, de Púchkin, por Aglaia, Gánia saca um revólver e ameaça a todos. Essa atitude deixa claro o desequilíbrio desesperado que se apossa de um personagem cujo foco é ser rico para sentir-se feliz.  Depois da atitude do filho, o general percebe que errou profundamente ao consolidar a formação da personalidade de seu filho, sendo o ator responsável por uma emocionante linha declinante da segurança anterior de seu personagem para a atual inadequação em que se encontra.

Depois de alguns episódios em que a atriz Lúcia Romano evidencia o jogo de vontades e contra-vontades de sua Aglaia e da revelação de Míchkin da compaixão em lugar de amar Nastássia, chega o momento em que a filha de Lisavieta – num primeiro momento um tanto abalada porque sua única filha casará com um “idiota”, mas depois feliz com a ideia – apresentará Míchkin à sociedade e esta, além de o rejeitar, ameaça excluir mãe e filha de seu círculo caso Aglaia se case com o príncipe.

A festa de noivado é um baile de máscara em que a “turma do funil” dos altos-burgueses é um profano e bufônico bloco carnavalesco maculando de hipocrisia o que deveria ser uma sagrada festa de noivado.

Deixo ao público o prazer de descobrir o desenlace da trama, só ressalto a alta voltagem com que dá vida à fatal Nastássia Filípovna e, retomando a predição que a cigana Maria Padilha fez à Míchkin: “Cuidado, o amor pode ser uma sentença de morte”.

*A crítica é a partir da perspectiva de quem assiste O Idiota em dois dias

Um monumento a Dostoiévski – Parte 1

Ficha Técnica resumida

Direção: Cibele Forjaz
Texto: Fiódor Dostoiévski
Cenário: Laura Vince

Trilha Sonora: Otávio Ortega
Elenco: Aury Porto, Fredy Allan, Luah Guimarãez, Lúcia Romano, Luís Mármora, Sergio Siviero, Silvio Restiffe, Sylvia Prado, Vanderlei Bernardino
Indicação:
Maiores de 14 anos

O Idiota

Espaço Tom Jobim. Rua Jardim Botânico, 1.088. Jardim Botânico. Rio de Janeiro. Tel. (21) 2274-=7012. 70 lugares. Segundas e terças-feiras, espetáculo completo com dois intervalos (duração de 6h30), às 17h30. Sábados (Parte 1), 17h30, e domingos (Parte 2 e 3), 17h30.R$20 a R$60. http://oidiotateatro.blogspot.com/

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