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29/07/2011 - 14:48

No Parlapatões Luciana Carnieli e o ABC da delicadeza

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Afonso Gentil, especial para o Aplauso Brasil (aplausobrasil@aplausobrasil.com)

"Absinto", com Bruno Perilo e Luciana Carnieli sob direção de Cássio Scapin

Em Absinto a protagonista se diz atriz e que vai fazer um teste para viver a Blanche Du Bois numa nova montagem de Um Bonde Chamado Desejo. Como todos sabemos, Blanche é a frágil sulista estatudinense  tornada ícone neurótica por Tenessee Williams, tão desamparada  quanto quase todas as suas outras heroínas.

Ele, por sua vez, é o Zelador  que, além das qualidades de praxe para a função, apesar de casado e pai de uma filhinha para cuidar, é tão jovem quanto a Atriz, bem apessoado e – acreditem! – ama Machado de Assis, o próprio Tenessee e outros figurões da literatura mundial.Não é preciso, num primeiro encontro entre inquilino recém-chegado e o prestimoso zelador, nada mais que uma troca de olhares para… Mas, não vá imaginando clichês. Falemos, sim, da jovem dramaturga.

Luciana Carnieli

Luciana Carnieli, essa nova e bem vinda autora  é boa por não se escorar na malfadada moda da “dramaturgia colaborativa”, logrando sozinha fazer deslizar no palco, com rara delicadeza, uma história dúbia de atração entre os sexos, feita de olhares, silêncios, gestos e falas quebrados pelo pudor e pelo medo da revelação de uma afetividade desvelada para além da tênue linha que os liga.

Às vezes, autora e público se perdem um pouco no permanente vai e vem do jogo entre realidade e devaneio, se é que existe realmente essa dualidade em cena.

Onde começa uma e termina o outro? Está tudo sob o efeito do licor amargo, o tal do absinto, metáfora da amargura que cresce na solidão?

São questões colocadas com tranqüilo controle do humor, jamais resvalando para o melodramático ou para seu contrário,o pedantismo intelectual.

Absinto, o espetáculo, é extremamente feliz na junção de talentos na sua feitura: Cássio Scapin tem aqui seu momento de sensível maestro na condução de uma dupla de atores em estado de graça,Luciana mais Bruno Perilo (da vanguarda do grupo Folias D´Arte), com cenário engenhoso e de bom-gosto visual de Fábio Namatame, autor também dos figurinos adequados ao clima impressionista da trama. Elogios também para os jogos de luz e para a trilha, principalmente para aqueles, freqüentes e  bem executados.

Absinto é um respiro na atmosfera sempre pesada dos palcos da  Praça Roosevelt.

UM ADENDO

A temporada involuntariamente está contrapondo  a doentia visão mórbida da realidade humana dos gerards, alvims e seus pares  sombrios, a uma resposta feminina de bom senso de maioridade mental e equilibrio civilizatório vindo da maturidade intelectual. É um mundo, pois, nada condizente com a visão de vida ingênua das mocinhas dos folhetins e tampouco com a negação desalentada dos quadrinistas.

Saudemos, pois, Célia Regina Forte (Ciranda), Raquel Ripani (Cabaré Luxúria), Gabriela Rabelo (O Grande Grito) e mais meia dúzia de autoras “independentes”.

SERVIÇO

Absinto/ Espaço Parlapatões/ Praça Roosevelt, 158 / fone 3258-4449 / 96 lugares / Quinta e Sexta às 21 horas /Ingressos (inteira) R$ 30,00 / 80 minutos / 16 anos / até 5 de agosto

Autor: - Categoria(s): Colaboradores, Críticas Tags:

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