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14/10/2011 - 23:14

O Prometeu da Cia. Balagan entra em cartaz no TUSP

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Michel Fernandes, do Aplauso Brasil (aplauso@gmail.com)

"Prometheus - A Tragédia do Fogo" - Creditos Mônica Côrtes

SÃO PAULO – Depois de anos de pesquisa, incluindo apresentações públicas que permitiram afinar ainda mais o espetáculo, a Cia. Teatro Balagan apresenta Prometheus – A Tragédia do Fogo, dramaturgia de Leonardo Moreira e direção de Maria Thaís, além de uma série de atividades paralelas, no TUSP, para celebrar os 12 anos do grupo.

Na mitologia grega, Prometeu pertence aos mitos de fundação e origem da raça humana. Quando Zeus instaura seu novo reinado, incumbe seu aliado, o titã Prometeu (aquele que pensa antes) e seu irmão Epimeteu (aquele que pensa depois), da distribuição dos dons entre os seres vivos. Epimeteu o faz sozinho e esquece do homem. Prometeu rouba o fogo dos deuses e entrega aos humanos. Castigado, ele é preso ao Cáucaso onde uma águia, durante os dias devora-lhe o fígado, que se regenera durante as noites. Mais tarde, Prometeu é libertado por Héracles.

"Prometheus - A Tragédia do Fogo" - Creditos Fernando Martinez

Prometheus – A Tragédia do Fogo faz uma arqueologia desse mito. As vozes dos atores-narradores, das personagens do mito e do coro se sobrepõem e se articulam no relato dos diversos acontecimentos que compõem a narrativa – a criação do homem, a separação dos deuses e dos homens, do homem e da natureza, dos irmãos Prometeu/ Epimeteu, o roubo do fogo, a condenação do titã ao Cáucaso e sua libertação entre outros.

A encenação, ainda que tenha a palavra como principal meio expressivo, traça relações, paralelos e fricções com outras formas de expressão, como o canto e a dança – mais especificamente com os atos, gestos que compõem as danças dos orixás. Assim, ao lado das narrativas, por meio do espaço cênico, da sonoridade, dos cantos gregos e danças afro-brasileiras, o espetáculo estabelece um espaço de cruzamento entre mundos que, aparentemente, são apartados – o passado e o presente, o tempo mítico e o tempo cronológico, as mitologias grega e africana, entre outros.

Em entrevista ao Aplauso Brasil, Maria Thaís fala sobre a construção do espetáculo, a linha de pesquisa da Balagan e projetos vindouros.

Aplauso Brasil – O que deu início ao desejo em mergulhar nos estudos da tragédia de Prometeu?

Maria Thaís – Em 2006 – após a realização de um espetáculo – Západ, a tragédia do poder -, optamos por repensar a dimensão da pesquisa que vínhamos empreendendo. O que significou analisar a trajetória de trabalho da Cia. (Balagan)  e levantar os interesses dos que, naquele momento, se propunham a manter o trabalho.  Elaboramos um projeto de pesquisa – sem a realização de espetáculo – com temas que reconhecíamos ser de interesse comum. Para o estudo de um dos temas, o trágico, escolhemos como matéria de trabalho o texto do Ésquilo, Prometeu. Por um motivo concreto – Prometeu  foi um projeto realizado nos anos noventa pelo ator Jean Pierre Kaletrianos (que naquele momento se juntava à Cia.) com o nosso diretor musical Fenando Carvalhaes – morto meses antes desta decisão. O texto em grego já estava transliterado etc. e a experiência anterior nos dava um bom material como ponto de partida.

AB – Nesse percurso teórico-prático de mais de três anos quais os momentos de insights que você destaca?

Maria Thaís – Muitos: a descoberta da potência do mito, a recusa de abordá-lo como herói; o seu caráter dual –  o existência do duplo Prometeu e Epimeteu; a ambiguidade do mito – o que cria e também destrói; as radicais separações que fazem parte do mito – dos homens/deuses,  dos homens/natureza, do masculino/feminimo, etc.; de ser um mito que foi incessantemente recontado; de serem os “homens” os protagonistas deste mito – apesar de não serem os “personagens”  dos atos narrados, entre outros.

AB – Qual o papel mais visível na contemporaneidade que justifica uma necessidade de diálogo com tal mito?

Maria Thaís – Não partimos da necessidade. Fomos, aos poucos, construindo o diálogo. O mito é subterrâneo e aprendemos, na medida que  o prospectamos, a encontrar a nossa leitura, a dar visibilidade a alguns aspectos que nos interessavam.  Se existe justificativa é a de ser a arte uma via de tornar visível o que não está visível.

AB – Balagan era o nome dado às feiras russas em que se apresentavam artistas que serão estudados por Meierhold, foco inicial das pesquisas do grupo. Nesses 12 anos de Balagan o que você destaca como evolução do projeto artístico do grupo?

Maria Thaís – Não sei se falaria em evolução – mas em apropriação. O termo Balagan em russo significa teatro de feira  mas, em outros idiomas tem o sentido de embate, de fricção, de briga – não no sentido físico -. O que vem amadurecendo na Cia. é a filiação a um projeto artístico – como defendia Meierhold – . Estar na Cia. significa eleger um determinado percurso artístico que não se organiza apenas em torno de resultados. É necessária uma delicada negociação entre os projetos individuais e os projetos coletivos.

"Prometheus - A Tragédia do Fogo" - Creditos Mônica Côrtes

AB – A partitura sonora é muito importante para Meierhold. Como se dá o aspecto das sonoridades em Prometheus?

Maria Thaís – Se dá em diálogo e em fricção com as outras matérias do espetáculo. É, como o espaço, a luz, o figurino, etc. uma camada autônoma do espetáculo. Porque a idéia de polifonia é talvez um dos conceitos que mais aspiro como encenadora. A sonoridade do espetáculo (criada por Gregory Silva) é uma VOZ fundamental – que determina e é determinada pelas outras matérias cênicas.

6 – O processo de dramaturgia se deu em diferentes camadas. Você pode falar um pouco sobre elas?

Maria Thaís – Uma primeira etapa – ainda sem a presença do dramaturgo Leonardo Moreira – foi realizada pelos atores. Além do texto do Prometeu Acorrentado começamos a descobrir outras obras e escritos sobre o mito. Os atores construíam narrativas, estruturavam Estudos Cênicos com este material. A chegada do Leonardo nos colocou em outro patamar. A capacidade de organização deste material – de criar a partir dele – e, ao mesmo tempo, de investigar  modos de composição foi fundamental para o desenvolvimento do trabalho. Os materiais eram sempre os levantados nesta primeira etapa; mas montamos e remontamos a estrutura dramatúrgica inúmeras vezes. Aos poucos, nas últimas etapas – do último ano – fizemos escolhas, tentando chegar ao que poderíamos considerar a síntese.

AB – Depois do canal receptivo o que afetou a finalização do trabalho?

Maria Thaís – Um processo de construção tão longo tem um elemento determinante – o tempo! Saber a hora de parar pra investigar a composição. Começar um trabalho mais vertical – que a temporada, creio, permitirá. É um outro momento da pesquisa e, espero, possamos dar outros passos.

AB – O Balagan é oriundo da universidade, portanto justifica-se a acuidade com as pesquisas teóricas desenvolvidas pelo grupo. Qual o objetivo e a expectativa dos estudos com o público?

Maria Thaís – A origem da Cia. é mista.  De um lado das relações que a experiência universitária propiciou e, de outro, o encontro com artistas que estão fora da Universidade – como o cenógrafo Marcio Medina que foi criador da Cia.  O que motivou sua criação foi a construção de uma oficina, um espaço de artesania, em que práticos de diferentes especializações se encontram. Nossa produção teórica tenta ser teoria da prática. Por isso o diálogo com o público se dá, prioritariamente, através da obra – e é a partir dela que construímos problemas que podem ser compartilhados com um público mais amplo.

AB – Quais serão os próximos passos do grupo?

Maria Thaís – Vários e em distintas direções:  Prometheus – tentar mantê-lo como matéria de investigação; o projeto Recusa, que ocupa parte da Cia. há três anos – e que parte de outra referência (a cultura ameríndia), que pretendemos finalizar em meados do ano que vem; os núcleos de investigações em torno do corpo – desenvolvidas por alguns atores a partir de seus temas de interesse (buthô, dança contemporânea, danças tradicionais, biomecânica, etc); a investigação sobre os cantos de tradição; e o que chamamos Incubadeira – que são projetos de encenação desenvolvidos por distintos membros da Cia. Aqui, por exemplo, começam outros projetos – o ator Antônio Salvador, começa suas experiências como diretor e  eu quero começar a investigar um texto de Pirandello  – Os Gigantes da Montanha – que “namoro” há anos. Algo para o futuro.

"Prometheus - A Tragédia do Fogo" - Creditos Fernando Martinez

Equipe de Criação

Atores: Ana Chiesa Yokoyama; Antonio Salvador; Gisele Petty; Gustavo Xella; Jean Pierre Kaletrianos; Leonardo Antunes; Natacha Dias; Hilda Gil; Martha Travassos; Vera Monteiro; Vera Sampaio e Wellington Campos

Encenação: Maria Thaís

Dramaturgia: Leonardo Moreira

Cenografia: Márcio Medina

Figurino: Marcio Medina e Carol Badra

Iluminação: Fábio Retti

Direção musical: Gregory Slivar

Assistente de iluminação e diretor técnico: Maurício Coronado Junior

Registro visual e cadernos pedagógicos: Gabriela Itocazo

Preparador corporal dança dos orixás: Wellington Campos

Produção executiva e administração: Deborah Rocha Penafiel

Programa das Atividades Paralelas

Encontros – Quartas Feiras, 20h – Eventos gratuitos. Exceto dia 30/11

Dia 19/10 – Introdução ao mundo grego

Antônio Medina Rodrigues

Professor aposentado com doutorado em Língua e Literatura Grega (FFLCH-USP), poeta, crítico e tradutor, autor de Utopias gregas (Ed. Brasiliense). Atualmente trabalha na Casa do Saber. Na imprensa de São Paulo (jornais O Estado de São Paulo e Folha de São Paulo) escreveu sobre cultura em geral e literatura. Também foram exibidos pela TV Cultura de São Paulo seus cursos de literatura. Nova publicação com suas palestras na área de clássicas está em andamento.

Dia 26/10 – O fígado de Prometeu – a cena eterna

Maria Cecília Miranda Coelho

Graduada em Matemática e Filosofia (UnB), Mestre em Filosofia (USP), Doutora (USP/Brown University) e Pós-doutora (UFMG) em Literatura Grega Clássica. Professora de Filosofia Antiga (UFMG) e Presidente da Sociedade Brasileira de Retórica.

Dia 02/11 – Introdução poética aos mitos gregos

Elias Andreato, Magali Biff e Paschoal da Conceição e Cia. Teatro Balagan

Elias Andreato – Ator de teatro, cinema e televisão, diretor e roteirista de alguns de seus trabalhos. Dentre suas criações, destacam-se: Artaud, O Espírito do Teatro; Sexo dos Anjos (prêmios Shell, Associação Paulista de Críticos de Artes – APCA, e Apetesp de melhor ator – 1990); Van Gogh (prêmio Shell), Rimbaud; Do Amor de Dante por Beatriz; Artaud, Atleta do Coração; Doido.

Magali Biff – Atriz de teatro, cinema e televisão, formada pela Escola de Arte Dramática da USP. Recebeu o Prêmio Shell de melhor atriz por sua atuação em “K”, adaptação do texto “Kaspar”, de Peter Handke. Três vezes indicada ao Prêmio Shell por: Boneca do Barco, Esperando Godot, Educação Sentimental do Vampiro. Recebeu o Prêmio APCA de Melhor Atriz por O Retrato de Janete. Atuou ainda sob a batuta de: Moacyr Goes, Zé Celso Martinez Correa, Cacá Rosset, Roberto Lage, Gerald Thomas.

Paschoal da Conceição – Ator de teatro, cinema e televisão, formado pela Escola de Arte Dramática da USP. No Teatro Oficina Uzyna Uzona, dirigido por José Celso Martinez Corrêa, atuou nos espetáculos Ham-letAs Bacantes, Mistérios gozozos, Pra dar um fim no juízo de Deus e Taniko. Dentre seus outros trabalhos, destacam-se: Novas Diretrizes em Tempos de Paz, Os Sete Afluentes do Rio Ota, A Louca de Chaillot, Salmo 91, As Três Velhas.

Dia 09/11 – O campo simbólico da Tragédia

Bernardo de Gregório

Médico psiquiatra, especialista em Psiquiatria e membro da Associação Brasileira de Psiquiatria (RJ). Psicoterapeuta em Abordagem Integradora (Jung, Reich , Antroposofia, Existencialismo). Cursou filosofia na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP. Autor do livro didático universitário “Neurofisiologia para Psicólogos”. Desenvolve seu trabalho em seu consultório particular em São Paulo, onde atua nas áreas de Psiquiatria Clínica, Medicina Antroposófica e Psicoterapia Integradora.

Dia 16/11 – O sentido trágico na modernidade

Marcos Soares

Doutor em Letras pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP e tem pós-doutorado pela Universidade de Yale, EUA. Atualmente, é professor de Literaturas Inglesa e Norte-Americana na FFLCH, onde pesquisa as relações entre literatura e cinema.

Dia 23/11 – Análise de tragédia como obra de exemplaridade

Olgária Mattos

Professora titular do Depto de Filosofia da USP. Mestre em Filosofia pela Universidade de Paris I, Sorbonne, doutora em Filosofia pelo Depto de Filosofia da FFLCH-USP. Publicou  Os Arcanos do Inteiramente Outros: a Escola de Frankfurt, a Melancolia, a Revolução, O Iluminismo Visionário: Walter Benjamin, leitor de Descartes e Kant, Contemporaneidades, entre outros.

Dia 30/11 – Show do grupo Anima – R$ 20,00 (inteira) / R$ 10,00 (meia)

A Donzela Guerreira

O grupo Anima de música de câmara, que há mais de vinte anos, constrói uma identidade musical própria, alicerçada sobre os pólos estéticos da música medieval ibérica e da tradição oral brasileira, aborda em seu novo trabalho o encontro entre o feminino e o masculino – anima e animus – através do mito da “Donzela Guerreira”, personagem arquetípica de todas as culturas e épocas: a mulher que se veste de homem, transgride o papel feminino e entra no universo masculino. Trafegando no espaço imaginário entre fronteiras diversas, oAnima nos conduz em uma fascinante viagem sonora.

Reconhecido como um dos mais conceituados grupos musicais brasileiros, o grupo Anima traça um caminho de intersecções entre a cultura de tradição oral brasileira, que revela suas origens portuguesa, indígena e africana, e a cultura européia medieval, renascentista e barroca.

O grupo Anima conta com a participação de destacados músicos e artistas brasileiros:

Marlui Miranda (voz e percussão);

Paulo Dias (percussão afro-brasileira);

Luiz Fiaminghi (rabecas brasileiras e vielle medieval);

Gisela Nogueira (viola de arame);

Marília Vargas (soprano);

Silvia Ricardino (harpa medieval);

Valeria Bittar (flautas doce renascentista, barroca e indígenas brasileiras).

O espetáculo A Donzela Guerreira tem a direção cênica de Maria Thaís, cenário e figurino de Márcio Medina, assistência de figurino Carol Badra e iluminação de Fábio Retti.

Serviço:

Espetáculo Prometheus – a tragédia do fogo

Estreia dia 14 de outubro, às 21h

O espetáculo permanecerá em cartaz até 04 de dezembro, de quinta a domingo

Quinta a sábado, às 21h e domingo, às 20h

Rua Maria Antônia, 294
Consolação – São Paulo, SP – 01222-010
Tel 11 3123-5233
Metrô Santa Cecília

Capacidade – 96 lugares

Preços – R$ 20,00 (Inteira) e  R$ 10,00 (Meia)

Indicação de faixa etária – 12 anos

A aquisição dos ingressos para espetáculos em cartaz no TUSP pode ser feita duas horas antes do início do espetáculo. Para sua comodidade, os ingressos podem ser reservados por telefone ou pessoalmente na administração do teatro, de segunda a sexta-feira, em horário comercial (9h às 18h).
Meia-entrada: Para estudantes mediante apresentação de carteirinha ou comprovante de matrícula válido para o ano vigente; para maiores de 65 anos; professores e funcionários da USP mediante apresentação de carteirinha ou hollerith; para os integrantes da CLASSE ARTÍSTICA mediante apresentação da Carteira de Trabalho com o registro de ator ou carteirinha da SATED ou COOPERATIVA.

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1 comentário para “O Prometeu da Cia. Balagan entra em cartaz no TUSP”

  1. RODOLFO disse:

    AMIGO SAUDADES DE VC!!!! GRANDE ABRAÇO!

Os comentários do texto estão encerrados.

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