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10/11/2011 - 18:41

“Alegres Humoristas” versus “Tristes Piadistas”

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Afonso Gentil*, especial para o Aplauso Brasil (aplausobrasil@aplausobrasil.com)

Marcelo Médici e Ricardo Rathsam na hilária "Eu Era..."

SÃO PAULO – Nossa vã filosofia jamais iria supor que o humor fosse virar caso de polícia. Consequência lógica do assustador uso da linguagem chula, da atitude cafajeste e do excesso de escatologia ao gosto de adolescentes, que dominam a maioria dos shows (?) da chamada Comédia em Pé (Stand Up-comedy)? Com certeza: muitos desses piadistas brotam da Internet com a rapidez dos coelhos,  minando a saúde do riso.

Bom lembrar que espetáculo solo, de um comediante de fato, tem toda uma logística de encenação que vai muito além da “roupa do corpo” e do microfone, a começar por um texto cuidadosamente selecionado.  Daí nos determos hoje em dois  exemplares do gênero: Eu Era Tudo Para Ela e Ela Me Deixou no Teatro da FAAP e Solidão,  A Comédia no N.Ex.T.

Esses piadistas, sem a indispensável graça natural, ou seja, de talento raquítico, deveriam embarcar conosco, num passeio icônico  pelo humor dos ídolos  das ultimas décadas até agora. Desde os antológicos solos dos intrépidos e corajosos Chico Anísio e Juca Chaves, passando pelos donos insuperáveis da piada de cunho deslavadamente surreal Ary Toledo e José Vasconcelos. Ou prestando a maior das atenções nos ingênuos do “pau oco” (duplo sentido) Mazzaropi, no cinema e Ronald Golias, na televisão. Ou ainda nas contundentes  sátiras de Jô Soares, herdadas naturalmente, pelo estilo espontâneo de Hugo Possolo.

HUMOR BURILADO POR AUTORES TALENTOSOS

À  maneira do famoso James Bond, vamos à apresentação: o nome dele é Boechat, Emílio Boechat. Assim deveria ser tratado esse talentoso autor, de poucas obras teatrais, mas centenas de roteiros para televisão. Boechat é o responsável primeiro  pelo concorrido cartaz do Teatro Faap, Eu Era Tudo Para Ela e Ela Me Deixou,  veículo para a cachoeira de risos em que se tornou o ator Marcelo Médici  desde Cada um Com Seus Pobrema.

Emilio Boechat está à espera de um ensaísta que se debruce sobre a sua tão verdadeira quanto cruel visão da contemporaneidade. Mas já dá para entrevê-la pelos tipos, pelos diálogos e pelo calvário percorrido pelo protagonista, a partir do momento em que sua entediada esposa despeja-o, literalmente, do seu próprio lar. Vamos acompanhar o desmonte impiedoso de um homem, como o fizeram Kafka (O Processo) e Brecht (Um Homem é um Homem). Dito assim,  parece um  tragicomédia existencialista. Que ela é! Mas, nas incontáveis mãos de Marcelo Médici e de seu surpreendente colega de cena, Ricardo Rathsam em formidável desempenho, o riso, involuntário ou não, é irreprimível, fazendo da montagem do FAAP um das melhores comédias em safras recentes.

SOLIDÃO, A COMÉDIA

Não é novidade, mas o tempo decorrido entre a montagem de Diogo Vilela e esta, com Mauricio Machado, recria com frescor e comedida melancolia, às vezes, um louco passeio pela solidão de diferentes tipos humanos, saído da mente criativa do saudoso Vicente Pereira, de vida breve, autor de Solidão.

Mauricio Machado não é exatamente um novato do teatro, mas aqui, c

Maurício Machado em "Solidão - A Comédia" - foto de Guga Melgar

onfirma, com rara vitalidade,  ser portador de uma autêntica veia cômica, na linha dos grandes mestres do gênero. Por ele e pelo texto, o espetáculo bem dirigido por Claudio Tovar envolve o espectador em espiral,  com um grand-finale  digno do gênero besteirol, que vem a ser uma mistura de comédia maluca com drama filosófico, dá para entender?

SERVIÇO:

EU ERA TUDO… Teatro da FAAP / Rua Alagoas, 903 / 506 lugares / telefone 3662-7233 / 6ª. 21h30, R$ 40, / sábado 2lh, R$ 70, / domingo, 18 h, R$60, / 75 minutos / 14 anos / até 04/12

SOLIDÃO, A COMÉDIA –  Teatro N.Ex.T. – Rua Rego Freitas, 454 – Vila Buarque – Estacionamento ao lado / telefone 3259-9636 / 6ª, e sábado 2l h e domingo 20h/ R$ 40, (6ª.) e R$ 50, (sábado e domingo) / 75 minutos / 12 anos / até 27-11

Autor: - Categoria(s): Colaboradores, Críticas Tags: , , , , , , , , , ,

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2 comentários para ““Alegres Humoristas” versus “Tristes Piadistas””

  1. […] http://virou.gr/sH6xdt Crédito: Guga Melgar Like this:LikeBe the first to like this post. […]

  2. Luiz Carlos Líbano disse:

    Achei ótimo o comentário acima, bem pertinente. Pois fazer humor é uma forma de arte, requer talento, estudo, consciência, bom senso e não oportunismo. Creio que se deva dar espaço a todo mundo, mas não deve haver uma inversão de valores e muitas coisas fora de ordem, como se diz naquela canção: ‘Alguma coisa está fora da ordem’. Louros e aplausos a quem tem talento pra tanto, senão os espaços se estreitam àqueles que têm muito a dizer e a nos enriquecer.

Os comentários do texto estão encerrados.

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