Publicidade

Publicidade
19/01/2012 - 18:31

Quem diria, até você, Marilyn Monroe!

Compartilhe: Twitter

Diogo Veiga, especial para o Aplauso Brasil (aplausobrasil@aplausobrasil.com)

Marilyn Monroe

SÃO PAULO – Em sua segunda crônica escrita com exclusividade para o Aplauso Brasil, Diogo Veiga escreve sobre um tema espinhoso para os que integram comissões julgadoras: como conceder prêmios para estrelas da mídia, mesmo que seu trabalho artístico apresentado, diferente de outros de sua carreira, seja de maior relevo dentre os que estão em julgamento.

Faz alguns anos que sou professor de dança e fui convidado a participar de um evento como jurado. Quando participo de um, coloco em meu pensamento que o que avaliarei será apenas o talento mostrado em palco, tentando ter uma postura neutra, neutralizando tanto a opinião de meus colegas quanto por quem realmente dança. Dançar vai além da técnica, do simples dois pra lá e dois pra cá, é algo que mexe com o corpo, a mente e a própria música no sentido de entender seu ritmo, interpretar sua origem, e, a partir daí, apreciar a arte em sua essência. E julgar alguém dançando é analisar toda uma série de movimentos, a expressão do corpo, o sentimento passado no compasso da música, isso não é uma tarefa fácil, e, por conseguinte, em véspera do tal evento, meus pensamentos estavam constantemente ligados nisso, os meus sonhos eram invadidos por microfones, faixas e troféus de campeão a todo o momento, ritmo de dança que variava da salsa ao rock, do batuque de atabaque a hinos monástico, dominava o ambiente. Com direito a cover de Elvis Presley com seu enorme topete e Amy Winehouse sóbria cantando pontos de umbanda com Clara Nunes. Acordava sem saber ao certo o que havia se passado, apenas reflexos armazenados pela memória, me faziam lembrar o ocorrido. Prometi a mim mesmoalguns dias de descanso após o termino do festival, a pressão e a responsabilidade eram grandes, afinal, os grupos eram todos talentosos e a escolha seria complicada.

E não é que uma noite, antes do concurso, tive um sonho, digamos, profético. Sonhei que estava no templo de Apolo, sentado numa larga cadeira com a postura ereta e as feições de uma esfinge; junto com outros jurados, observávamos as musas do deus viril dançando em volta de sua estatua, e toda sequência de movimentos feitos por elas, transmitiam uma linguagem de liberdade, a tal liberdade que vale à pena você se desprender da timidez, dançar com emoção, deixar refletir sua personalidade.

Distraído com a dança das musas, não percebi ser anunciado duas candidatas que dançariam para nós. A primeira entrou e sua dança foi digna de aplauso, vi que se expressou mostrando personalidade. A segunda fez mistério, parou no centro, tirou o véu que cobria sua cabeça, esse ato foi reagido por um som onomatopeico expelido por mim e os demais jurados. Quem diria, até você Marilyn Monroe!

E era ela mesma, no seu um metro e sessenta e seis centímetros de altura, os cabelos fortemente oxigenados, no auge de sua Idade Perigosa. Ficamos nós Desajustados, por um minuto esqueci completamente da primeira candidata, estava diante da mulher considerada mais sexy do mundo, e com toda certeza se fosse para escolher por beleza certamente Marilyn Monroe ganharia, porque Os Homens Preferem As Loiras.

E, num ato instantâneo de consciência, voltei ao meu estado normal, não podia julgar a beleza e, sim, o que ela mostraria com sua dança. Marilyn, loucura dos homens, martírio dos críticos, espero que faça algo que marque o seu talento e não por ser simplesmente Marilyn, tentei buscar um nome de uma personagem que ela tenha feito, e não me lembrava.

Algumas atrizes ficaram marcadas por seus personagens, caso de ScarlettO’Hara, personagem interpretado por Vivian Leigh, em O Vento Levou, diferente de Marilyn, coitadinha.

Quando a música começou a tocar e o cavalheiro entrou, os jurados se entreolharam com deboche, Marilyn dançaria um pasodoble espanhol. Todos, ali presente, inclinaram o corpo como se fossem touros de uma arena espanhola, esperando o momento certo para chifrá-la. E ela começou, mostrando nitidamente no olhar e nos lábios a seguinte frase: “acreditem, Nunca Fui Santa”. Será que era aquele o momento de Marilyn Monroe conquistar o respeito, que sempre almejou em vida como atriz, fazendo agora o papel de dançarina? Dançando um ritmo quente? E Quanto Mais Quente, Melhor ia ficando sua apresentação, mostrava mais do que sensualidade, mostrava atitude e elegância, como a dança pedia. Havia sintonia entre o casal, olho no olho, força e energia. Em passos feitos com habilidade, sua saia levantava, o que fazia lembrar a famosa cena da saia do metro, no filme O Pecado Mora ao Lado.

Terminada a dança, os jurados ficaram inquietos e começaram a votar. Quis ser o último, estava confuso na minha escolha e quando chegou a minha vez, houve um empate, e o meu voto seria o de minerva. Tremi na base, olhei para imagem de Apolo, deus da luz da verdade e da consciência, foquei nele e em todo o meu conhecimento de dança, tinha que ver a arte mostrada ali, os sentimentos expressados, a técnica, a coreografia, tudo a ser pensado rapidamente. Fiz a minha escolha e anuncie: Marilyn Monroe. Um dos jurados se exaltou, mostrando sua indignação em minha escolha, embora Marilyn tenha lutado a vida inteira para mostrar o seu talento de atriz, cativando uns e deixando duvidas em outros, naquele momento não vi a mulher mais sexy, nem a pinta no rosto, nem o cabelo oxigenado ou me lembrei do escândalo envolvendo o seu nome com o do presidente Kennedy. Vi uma moça dançando com talento, elegância e domínio. Acordei desse sonho, com a sensação de que algo aconteceria nesse festival. Chegada à noite, todos os candidatos fizeram boas apresentações, fiquei por ultimo e, como no meu sonho, meu voto foi o de minerva, e lembrei-me de tudo que havia acontecido nele e pude, sem oscilar, votar no melhor grupo daquele concurso.
<a href="“>

Autor: - Categoria(s): Colaboradores, Multimídia Tags: , , , ,

Ver todas as notas

Os comentários do texto estão encerrados.

Voltar ao topo