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08/03/2012 - 23:37

Strindberg questiona o casamento tradicional

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Maurício Mellone, editor do Favo do Mellone site parceiro do Aplauso Brasil (aplausobrasil@aplausobrasil.com)

"Brincando com Fogo" - foto por Lígia Jardim

Com direção de Nelson Baskerville, a Cia Mamba de Artes apresenta Brincando Com Fogo, peça inédita no país, dentro das comemorações do centenário de morte do dramaturgo sueco

SÃO PAULO – Hoje em que se discute o modelo romântico de casamento, a montagem da Cia. Mamba de Artes da peça, inédita no Brasil, de August Strindberg, Brincando com Fogo, em cartaz na Caixa Cênica do SESC Pompeia, é mais do que bem-vinda.

Mesmo tendo sido escrita em 1891, a peça é atual justamente por colocar em cheque o casamento tradicional, muito conhecido e praticado por todos nós até hoje. Na montagem dirigida por Nelson Baskerville o público é surpreendido logo ao entrar: ao invés de uma sala comum de exibição, as pessoas se deparam com uma tenda inflável, em que os atores estão preparados para o início de uma cerimônia de casamento, e são, em seguida, conduzidas a se sentar nos dois lados da tenda. Somos ao mesmo tempo espectadores de teatro e convidados do casamento.
Depois do terceiro sinal — dado por microfone por um dos atores na tenda —, a cerimônia do casamento tem início, desde a entrada da noiva, os rituais do enlace até os cumprimentos, a festa e a consequente ressaca. Detalhe: todas estas cenas acontecem dentro da tenda inflável, somente com uma trilha sonora, sem qualquer fala. Tudo muito ágil e impactante.

"Brincando com Fogo" - foto por Lígia Jardim

O tédio daquele casal de férias na casa de praia dos pais (interpretado por Adilson Azevedo) só vem à tona depois das cenas iniciais. Para agitar a relação já desgastada, Kut (Elvis Shelton) e Kristin (Briza Menezes) convidam Axel (Flavio Barollo) e Adélia (Patrícia Castilho) para literalmente se divertirem a quatro. O objetivo é que o desejo entre o casal fosse reavivado, porém a receita do bolo desanda. Kristin se apaixona pelo amigo do casal e é punida pela traição; já o marido permanece com as duas mulheres, reafirmando o padrão machista da época de Strindberg e, diga-se a verdade, o padrão machista vigente até hoje!

O diretor confessa que, pela solução dada pelo autor sueco, resolveu interferir: “Mesmo não tendo mudado muita coisa até hoje, resolvemos rever esta posição. Como a traição masculina é aceita e a feminina condenada, fiz uso de dois finais: o do Strindberg, e no outro, inventei. A mulher dá o troco no marido”, diz Baskerville.

O destaque da montagem é justamente a inusitada tenda inflável, instalação criada pelo grupo Casa da Lapa. Além da direção, Nelson Baskerville é o responsável pela iluminação e trilha sonora do espetáculo. E justamente por se envolver em todo o processo de produção — na premiadíssima Luís Antonio Gabriela e na recente Os Sete Gatinhos —, fico com uma dúvida. Será que os espetáculos de Baskerville não começam a ter uma concepção cênica única, mesmo com autores, épocas e temáticas tão díspares e complexas?

Saí de Brincando com Fogo com esta impressão.

Roteiro:
Brincando com Fogo
. Texto: August Strindberg. Tradução: Denise Weinberg. Direção: Nelson Baskerville. Elenco: Briza Menezes, Elvis Shelton, Flavio Barollo, Patrícia Castilho e Adilson Azevedo. Luz e trilha sonora: Nelson Baskerville. Cenário e adereços: Julio Dojcsar. Figurino: Silvana Marcondes. Vídeos: André Collazzi. Operador de luz, som e vídeo: Igor Sane. Contrarregra: Jamil Kubruk. Projeto gráfico e ass. de figurino: Amanda Vieira. Fotos: Ligia Jardim. Arte educadora: Adriana Lobo Martins. Produção executiva: Leandro Viana. Coordenação do projeto: Ricardo Barollo. Direção de produção: Luque Daltrozo. Idealização: Cia. Mamba de Artes e ONG Viva Cultura

Serviço:
SESC Pompéia – Caixa Cênica (60 lugares), Rua Clélia, 93 – Tel. 3871.7700. Sextas e sábados às 21h30; domingos às 19h30. Ingressos: R$ 20, R$ 10 (usuário matriculado no SESC e dependentes, +60 anos, estudantes e professores da rede pública de ensino) e R$ 5 (trabalhador no comércio e serviço matriculado no SESC e dependentes). Informações da bilheteria: você pode comprar os ingressos em qualquer unidade.  www.sescsp.org.br/pompeia. Duração: 70 minutos. Recomendação: 14 anos.Temporada: até dia 08 de abril.

Autor: - Categoria(s): Artigos, Resenhas e Crônicas, Colaboradores Tags: , , , , , , , , , , , , , , , , ,

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5 comentários para “Strindberg questiona o casamento tradicional”

  1. Danielle disse:

    Não seria a ‘identidade’ que todo diretor busca? por que você coloca a questão no final de maneira tão pejorativa? achei sua colocação um tanto quanto superficial. se você puder dar mais profundidade a sua tese, eu agradeço.

    • michelfernandes disse:

      há uma busca por uma identidade discursiva no campo estético? o pejorativo pode ser a inadequação do discurso utilizado? o que é a busca pela identidade e o que é a repetição pela repetição, como separar as hipóteses?

  2. Igor Sane disse:

    ‎’Será que os espetáculos de Baskerville não começam a ter uma concepção cênica única… ‘
    Por favor, alguém explica pro crítico que um artista precisa repetir padrões para se aprofundar.
    Os grandes gênios da arte mundial, só chegaram a este estágio após muita, muita repetição de padrões.
    Quantas pinceladas impressionistas Matisse utilizou em seus quadros? Quantos quadros cubistas Picasso pintou? Quantas bandeirinhas de festa junina Volpi pintou? Quantos ie-ie-ies foram utilizados pelos Beatles? Quantas vezes Betthoven utilizou o acorde Ré menor? Quantos personagens vestindo terno preto e segurando guarda-chuva será que Tadeusz Kantor colocou em cena? Quantos atores já ficaram nús nos espetáculos do José Celso Martines Correa? Quantos tijolos, melancias e ovos foram quebrados por Frank Castorf?
    Quantas vezes Bertold Bretch quebrou a ‘quarta parede’?

    Acho que a isso podemos dar o nome de estética…
    E sim é possível perceber, assistindo 17x Nelson, Por que a criança cozinha na polenta, Luis Antonio-Gabriela, 17x Nelson parte II, Os sete gatinhos e agora Brincando com fogo, que o diretor Nelson Baskerville está desenvolvendo uma estética particular própria…
    E somente repetindo elementos estéticos poderá evoluir dentro de sua pesquisa de linguagem e encenação… E que se repita pelo tempo que for necessário!

    • michelfernandes disse:

      não sou advogado de maurício, tampouco vi a montagem. sou a favor da repetição quando ela faz sentido, não apenas como mero efeito cênico tão somente ocupado em repetições plástica sem preocupação estética. pq não vi o espetáculo não posso opinar, repito, mas vamos refletir sobre estética e plástica.

    • Igor Sane disse:

      Então Michel… É muito bom mesmo refletirmos sobre estética e plástica, pois existem várias definições para estética. Inclusive o uso da palavra estética vem do grego e significa algo como ‘sensação’; e foram os próprios filósofos gregos os primeiros a usarem o termo, que para eles nada mais era do que o ‘estudo sobre o belo artístico’… Obviamente com o decorrer dos séculos a definição para estética mudou muito. Vieram Hegel, Kant, Marx, Husserl e muitos outros que utilizaram a
      palavra para suas próprias finalidades filosóficas ou científicas…

      Entretanto voltando a questão inicial, podemos perceber através da continuidade da utilização dos mesmos recursos cênicos através de seus espetáculo, que o diretor
      em questão está nitidamente procurando estabelecer a sua ‘maneira’ de se contar uma
      história, ou como vc colocou no post anterior, uma ‘identidade discursiva no campo estético’. Não há dúvidas. É nítido a intenção do mesmo. O resultado entretanto é o que pode ser questinado: funcionou estéticamente ou é só um ‘mero efeito cênico tão somente ocupado em repetições plástica’ e que pode ser descartado do espetáculo sem prejuízo do mesmo?

      Mas para se chegar a este questão, primeiramente é preciso repetir, experimentar. Para depois excluir o que não funciona mais… Ou o que não funciona para aquele espetáculo em questão…

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