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21/03/2012 - 22:43

Leia entrevista com Neyde Veneziano

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Luís Francisco Wasilewski, especial para o Aplauso Brasil (lfw@aplausobrasil.com)

"Mistero Buffo"

SÃO PAULO – Toda obra de arte que possui histórias bíblicas é contada de forma reverente, certo? Errado. Mistero Buffo, uma comédia em tom satírico de Dario Fo, ganhou adaptação de Neyde Veneziano para o grupo LaMínima e estreia sexta-feira (22) no Teatro do Sesi-SP (Avenida Paulista, 1313). Em cena, vinte personagens são desdobrados pela dupla Domingos Montagner e Fernando Sampaio, tendo como parceiro sonoro, no palco, o ator (e também palhaço) Fernando Paz, com Marcelo Pellegrini na direção musical. Neyde Veneziano assina a direção e tradução, esta última em parceria com André Carrico. Esta estreia abre as comemorações de 15 anos, completados em 2012, de criação do grupo LaMínima.

São quatro pequenas histórias, escritas por Fo com inspiração em passagens da Bíblia, mas que subvertem a seriedade do assunto através de uma linguagem repleta de gírias, dialetos e situações, que se mesclam à estética de Dario Fo e à do palhaço. Os quadros que compõem o espetáculo são A Ressurreição de Lázaro, O Cego e o Paralítico, O Louco e a Morte e O Louco aos pés da Cruz. Mistero Buffo faz parte das comemorações do Momento Brasil-Itália e é uma produção do SESI-SP. A direção musical é de Marcelo Pellegrini, com trilha sonora executada ao vivo pelo Fernando Paz, que leva ao palco seu trompete, viola caipira, cavaquinho e até um serrote, instrumento típico do repertório musical dos palhaços.

Leia abaixo entrevista que Neyde Veneziano concedeu ao Aplauso Brasil.

Aplauso Brasil – Como surgiu a sua paixão pela obra de Dario Fo?

Neyde Veneziano – Em 1988 recebi de uma amiga que voltava da Itália o texto Arlecchino, de Dario Fo. Naquele momento, eu estava fazendo um curso de pós sobre commedia dell´arte e dava aulas na UNICAMP. Resolvi montá-lo com os alunos do último ano. O espetáculo fez muito sucesso e se apresentou durante dois anos, ganhando vários prêmios. Quase 10 anos depois fiz um projeto de pós-doutoramento para a Itália, a fim de pesquisar Dario Fo.A pesquisa foi aceita pela FAPESP e passei um ano em Milão estudando, pesquisando nos arquivos Fo e Rame e entrevistando os dois: Dario e Franca. De lá para cá, mantenho-me informada sobre o que acontece com ele e acompanho sua produção, tanto teatral quanto pictórica.

AB – Fale como foi ter estudado a obra de Dario, o que acabou resultando em seu livro sobre ele.

Neyde Veneziano – Estudar a obra de Dario é estudar a sua trajetória e é, também, estudar Franca Rame, sua mulher. Durante o período que vivi em Milão (2000/2001) passei pela experiência mais rica que tive na vida, tanto observando o teatro deles, como também percebendo seus valores morais e suas posturas incansáveis diante do trabalho. Como Prêmio Nobel, ele é requisitadíssimo (e continua a sê-lo) por autoridades governamentais de diversos países. Mas a vida que gira em torno dele é toda arte. Dario desenha, pinta quadros, faz esculturas, cria os figurinos e cenários de seus espetáculos, compõe as músicas, escreve, dirige e interpreta. Ele, provavelmente, é o homem de teatro mais completo do mundo atual. Incansável, continua (aos 86 anos) fazendo seus monólogos, sempre precedidos de um Prólogo onde expõe suas ideias humanitárias, oferecendo à plateia a chave certa para a compreensão de sua obra. Dario continua, também, a dirigir no exterior. Ele foi o único “estrangeiro” que dirigiu na secular Commédie Française e, frequentemente, encena óperas fora da Itália. Dario é, além de tudo, um grande pesquisador. Talvez tenha sido esta a sua faceta com a qual mais me identifiquei. Dario pesquisa a história e sempre “duvida” da versão oficial dos fatos. Conhece, como ninguém as origens da Itália. Até em conversas informais ele me contava, como um antigo jogral, sua versão dos fatos atuais, sem palco, sem refletores, tendo apenas eu e sua assistente como ouvintes. Era fantástico.

AB – Do que fala Mistero Buffo?

Neyde Veneziano – Mistero Buffo é uma coletânea de textos (monólogos) que surgiram a partir das pesquisas que Dario fez sobre os jograis e suas versões dos Mistérios medievais. Estou falando daquelas composições dramáticas chamadas Mistérios, que ensinavam ao povo sobre as Sagradas Escrituras. Às irreverentes versões dos jograis, Dario deu a sua forma contemporânea, acrescentou seu pensamento político, juntando-as sob o título Mistero Buffo.

AB – O que te atraiu nestes textos para encená-los?

Neyde Veneziano – São mais de 20 histórias do Mistero Buffo. Escolhemos quatro. O que mais me atrai nestes textos para encená-los é a possibilidade de trabalhar com a síntese, de ter o ator como centro do espetáculo. Além disso, os textos de Dario trazem sempre uma tragédia por trás da comédia. Dario não faz gracinhas. Seu humor é sempre crítico, irreverente e satírico.

AB – Como foi o processo de adaptação dos textos para a realidade brasileira?
Neyde Veneziano –
Não é fácil traduzir e adaptar qualquer texto de Dario e, em especial, Mistero Buffo. Por se tratar de teatro popular, Dario se vale dos dialetos e do grammelot (sucessão de sons e onomatopeias que só se fazem entender se acompanhada de expressão corporal eficaz). Não se pode dizer que haja dialetos no Brasil. Mas a linguagem popular se diferencia de acordo com as regiões e os grupos sociais. Sendo assim, pesquisamos muito a linguagem de rua e a fala do povo, pois teríamos de encontrar um “linguajar” que não fosse literário e, sim, muito popular. A principal adaptação à realidade brasileira, no entanto, não foi uma adaptação “formal” e sim uma adaptação “conceitual”. Mistero Buffo é uma obra criada no final dos anos 60. A Itália passava por sérios problemas econômicos. Dario defendia os trabalhadores e se engajava na luta contra as injustiças sociais.  Mistero Buffo foi a voz do “jogral” contemporâneo que se colocava diante destes problemas alertando os espectadores. Além do mais, a história da Itália é (evidentemente) muito mais antiga do que a nossa. Em nossa Idade Média havia índios, não havia Inquisição. Nossos maiores problemas, hoje, são a violência e a corrupção. E é levando isto em conta que adaptamos os ideais “socialistas” aos ideais “sociais”. Conservamos as histórias, as situações e toda a estrutura do texto. Mas “abrasileiramos” os problemas. No teatro popular, é a atualidade que conta.

"Mistero Buffo" - foto de Carlos Gueller

Dario faz estes textos em forma de monólogos, ou seja, ele apresenta sozinho todos estes personagens que dialogam entre si, já que todos os textos da coletânea chamada MisteroBuffo são monólogos. A performance de Dario no palco é estupenda e impossível de ser “imitada”. Estes monólogos foram inspirados nos racontos dos giullari da Idade Media. Estes jograis (giullari, em italiano) eram o jornal falado do povo, contavam as histórias em primeira pessoa e, enquanto narravam, iam fazendo todos os personagens. E é assim que fazemos. Só que estamos encenando seguindo a estética dos palhaços já que, como disse, imitar Dario Fo seria impossível. Além do mais, Domingos Montagner e Fernando Sampaio são uma dupla extraordinária de palhaços brasileiros. Uma dupla muito conhecida e querida do público. Como dupla de palhaços é considerada uma só entidade (um não existe sem o outro), os monólogos são contados pela dupla LaMinima. Acrescentamos um outro palhaço na cena, Fernando Paz, que fará, além de participações como ator, comentários musicais, tocando diversos instrumentos ao vivo.

AB– Como surgiu esta sua parceira com o LaMínima?

Neyde Veneziano – Foi em 2007, quando Domingos fez a preparação circense para o espetáculo Um Dia (quase) igual aos Outros, que eu dirigia. Foi quando nos conhecemos como parceiros de trabalho e sentimos que falávamos a mesma língua. Vieram as primeiras conversas sobre o meu livro e, depois, pensamos na possibiidade de fazermos, juntos, Mistero Buffo. Elaboramos o projeto, que foi acolhido pelo SESI e estamos felizes com essa parceria.

Ficha Técnica

Concepção e Adaptação: LaMínima e Neyde Veneziano Direção:Neyde Veneziano Tradução: Neyde Veneziano e André Carrico Direção Musical: Marcelo Pellegrini. Cenografia: Domingos MontagnerFigurino: Inês Sacay Adereços: Maria Cecília Meyer Iluminação:Wagner Freire Produção Visual: Sato Assistência de direção: André Carrico Administração: Luciana Lima Produção: SESI-SP

Serviço

Local: Teatro do Sesi-SP, Av. Paulista, 1313 (Metrô Trianon-MASP) Fone: 11 3146 7406

Temporada: De 22 de março a 03 de junho, de quinta a  sábado, às 20h30 e domingo, às 20h.

R$ 10,00 e R$ 5,00 (sábados e domingos) – Entrada Franca (quintas e sextas-feiras)

OBS: Haverá bate-papo com o grupo nos dias 26/4, 04/5 e 10/5, sempre com início às 20h.

Recomendação: 14 anos

Duração: 75 minutos

Autor: - Categoria(s): Colaboradores, Matérias Tags: , , , , , , , , , , , , , , , , ,

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