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17/05/2012 - 18:06

Elias Andreato e Leonardo Miggiorin em interpretações vigorosas

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Nanda Rovere, especial para o Aplauso Brasil (aplausobrasil@aplausobrasil.com)

"Equus"

SÃO PAULO – Alan Strang (Leonardo Miggiorin) cegou cinco cavalos com estilete, sem um motivo plausível, e está condenado à prisão. Para tentar salvar a vida do menino, a advogada (Mara Carvalho) conta com a ajuda de um famoso psiquiatra, Martin Dysart ( Elias Andreato) . O destino desse menino está nas mãos desse médico que precisa entender os motivos do crime para ajudá-lo. Eis a base da trama do inglês Peter Schaffer em Equus, cartaz do Teatro Folha.

Leonardo Miggiorin e Patrícia Gasppar em "Equus"

Dysart narra o encontro com o menino e divaga sobre a sua profissão. A solução do caso que tem em mãos é como um quebra-cabeças.  Alan é internado e o público acompanha as sessões com o psiquiatra, as lembranças do rapaz e sua relação com os pais. Aparentemente,  sua vida é normal, com os percalços comuns a qualquer ser humano, mas,  aos poucos, desvendamos seus traumas, suas paixões e fatos que demonstram um comportamento cotidiano a delinear perturbações psicológicas.

"Equus", de Peter Schafer, direção de Alexandre Reinecke

Um espetáculo que disseca a alma humana; que fala de amor, desejo, loucura, religião e hipocrisia de maneira envolvente e impactante. Aos poucos, o médico conquista a confiança de seu paciente.

Não há uma resolução do caso, mas fica claro que Alan não consegue controlar as suas emoções. O cavalo, Equus em latim, é a sua obsessão; significa o desejo de liberdade, é sagrado e ao mesmo tempo tem apelo sexual; mas também é o elo que possui com os seus pais e com a dificuldade em se relacionar com eles.

O público não presencia a resolução do caso, mas são apresentados indícios que desvendam o porquê do crime.

Seus pais são superprotetores. A mãe (Patrícia Gasppar), religiosa fervorosa; o pai ( Jorge Emil), é um comunista que não admite TV em sua casa e coíbe atitudes do filho que sinalizem religiosidade e mesmo ações típicas de quem está descobrindo a vida, como aceitar andar a cavalo com um desconhecido quando criança, ou frequentar um cinema pornô com a namorada.

"Equus"

Descobrir que o seu pai não é tão correto quanto sua mãe pregava é uma decepção que pode ter contribuído para o ato insano, assim como a dificuldade em se relacionar com a primeira namorada ( Bruna Thedy).

Os encontros com Alan suscitam no psiquiatra reflexões sobre a sua atuação profissional e a sua vida pessoal. Neste sentido, Equus é um trabalho que rende reflexões interessantes sobre o ser humano e o modo como conduzimos a nossa vida e nos relacionamos com o outro.

O cenário lembra uma prisão e um estribo e se transforma em ambientes, como a casa de Alan, cinema e praia. A luz contribui para desenhar a emoção dos personagens e, nos momentos em que a força das cenas se acentua, luz e trilha se unem para criar um clima de dramaticidade, em que a loucura e os devaneios dos protagonistas atingem o ápice.

Em alguns momentos, a estrutura é movimentada pelos atores, o que dá dinamismo às cenas e delimita os espaços diferenciados dos acontecimentos, sobretudo dos que ocorrem fora da clínica em que Alan está internado.

A direção de Alexandre Reinecke é competente. Guia com maestria os atores e consegue criar cenas dinâmicas, que prendem a atenção pela palavra e pela imagem.

Leonardo Miggiorin tem a tarefa de dar ao seu personagem nuances que revelam uma personalidade que pode ser extremamente dócil num determinado momento e logo em seguida apresentar um comportamento inquieto e perturbador. Consegue um desempenho primoroso.  O ator interpreta com vigor o seu personagem e sua fisionomia apresenta a alma inquieta e perturbada de seu personagem. Seus movimentos físicos são exaustivos e ressaltam os devaneios de Alan.

O texto é forte, mas mesmo nos momentos mais tensos Reinecke conseguiu imprimir sutileza às cenas, através das expressões corporais, sobretudo quando os atores se transformam em cavalos. Não há imitação, mas a representação de toda a voluptuosidade desse animal.

Elias Andreato é ator experiente, que traz a cada trabalho vigor impressionante porque se entrega aos seus personagens, desenha com competência seus gestos e emoções. É um ator que conquista pela empatia, carisma e qualidade das interpretações, independentemente das características do personagem que interpreta. O seu psiquiatra é questionador, seguro em suas ações e diagnóstico, e também pronto para tirar desse tratamento lições para a sua vida pessoal. Não há um apego emocional entre ele e Alan, mas a sua função é tentar ajudar o menino e os dois estabelecem um jogo em que a cumplicidade vai ganhando cada vez mais espaço. Dysart sabe como investigar a vida de seu paciente e suas ações são precisas. Elias e Leo protagonizam cenas marcantes, conseguindo uma empatia que merece aplausos. A relação médico/ paciente é intensa nos diálogos e o embate entre os personagens acontece via diálogo, contato físico e olhar.

Mara Carvalho, Jorge Emil e Patrícia Gasppar têm participações pontuais e que contribuem para a qualidade do espetáculo. Mara é a advogada. Segura e competente profissional, é quem solicita a ajuda do psiquiatra para evitar que Alan seja punido com a prisão perpétua. Jorge Emil e Patrícia Gasppar interpretam os pais, que não conseguem estabelecer uma relação harmoniosa e, apesar de amarem o filho, estão sempre punindo, ameaçando e brigando com Alan. Os demais atores têm pequenas participações, mas contribuem para que a narrativa tenha força.

Eqqus não é um espetáculo fácil, daqueles em que saímos da sala de espetáculos e esquecemos a encenação. As cenas permanecem em nossa memória e o teatro consegue, portanto, atingir o seu objetivo maior, que é suscitar reflexão.

A ligação de Alan com os cavalos e os momentos em que o menino demonstra imenso prazer em estar montado no animal, num misto de medo, gozo e felicidade são marcantes.

Ficha Técnica:

Dramaturgia: Peter Shaffer

Adaptação e Direção: Alexandre Reinecke

Elenco: Elias Andreato, Leonardo Miggiorin, Patrícia Gasppar, Jorge Emil, Mara Carvalho, Léo Steinbruch, Gustavo Malheiros, Bruna Thedy e Fernanda Cunha.

Cenários: André Cortez

Cenotécnico: Fernando Bretas (Onozone)

Figurinos: Renata Young

Iluminação: Paulo Cesar de Medeiros

Direção musical: Tunica

Preparação Corporal: Carol Mariottini

Fotografia: Chris Ceneviva

Assessoria internacional: Claudio Erlichman

Coordenação de Produção: Isabel Gomez

Assistente de Produção:Manuela Figueiredo

http://pecaequus.tumblr.com/

Serviço:

Equus

Teatro Folha

Temporada: até 1º de julho

Horários: Sexta, 21h30, sábado, 21h e domingo, 20h.

Ingressos: R$40 (setor 2) e R$60 (setor 1)

Duração: 90 minutos

Classificação indicativa: 16 anos

Autor: - Categoria(s): Colaboradores, Críticas Tags: , , , , , , , , , , , , , , , ,

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