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18/05/2012 - 15:55

Celso Frateschi vive Giordano Bruno

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Maurício Mellone, editor do Favo do Mellone site parceiro do Aplauso Brasil (aplausobrasil@aplausobrasil.com)

"Processo de Giordano Bruno" = foto de João Caldas

Sob direção de Rubens Rusche, o ator encarna o filósofo que foi queimado vivo pela Inquisição por defender suas ideias e se opor aos dogmas e intolerâncias da igreja católica em Processo de Giordano Bruno

SÃO PAULO = Em curta temporada no SESC Vila Marina, Processo de Giordano Bruno, montagem que relata os últimos anos de vida do filósofo Giordano Bruno — vivido com brilhantismo por Celso Frateschi — antes de sua condenação pela Inquisição, em fevereiro de 1600.

Com texto do italiano Mário Moretti, tradução e direção de Rubens Rusche, a peça Processo de Giordano Bruno é constituída de duas partes: a primeira mostra o filósofo, que era da Ordem dos Dominicanos, em Veneza como hóspede do nobre Giovanni Mocenigo, que desejava aprender a arte da memória. Como não concorda e se assusta com as ideias revolucionárias de seu hóspede, Mocenigo o denuncia à Inquisição. Na segunda parte, vemos Giordano Bruno preso em Roma e respondendo ao processo que o levará à morte (foi queimado vivo no Campo das Flores, depois de oito anos de processo); para se livrar da condenação ele teria de abjurar suas teorias do mundo infinito, suas ideias sobre heliocentrismo (o Sol como o centro do sistema solar e não a Terra), a existência de vida em outros planetas, entre outras teorias. Ele se recusa e morre por seu ideal.

Com cenário compacto (apenas um tablado em formato de cruz e uns módulos) e figurino sóbrio (hábitos pretos para os inquisidores e branco para o condenado), ambos assinados por Sylvia Moreira, a montagem dá ênfase ao texto, principalmente à defesa do ideário de Giordano Bruno, tão à frente de seu tempo.

Os embates de ideias na primeira parte são mais amenos, já que Bruno estava como hóspede e seu anfitrião tinha curiosidade e sede de saber. Mas como fica perturbado com as novidades e como as teorias do filósofo se opunham à visão restrita e intolerante do catolicismo, o nobre faz a denúncia e Bruno é conduzido para responder ao processo da Inquisição, a pedido do Papa.

"Processo de Giordano Bruno" = foto de João Caldas

Já em Roma, preso e debilitado fisicamente, Giordano Bruno é inquirido pelas autoridades eclesiásticas e é obrigado a defender suas teorias.

Este momento da peça é, na minha visão, o mais interessante para a plateia: como Bruno era um estudioso e ligado à astronomia, defendia a teoria de Copérnico — a Terra como pa00rte do sistema solar e não mais como o centro do universo —, além de acreditar num mundo infinito, na existência de vida em outros planetas e no panteísmo, a identificação com o pensamento contemporâneo é imediato. Por isso que, em determinadas passagens, o público chega a rir compulsivamente com a defesa patética do representante da igreja católica, que rebate o pensamento de Bruno. Dentre algumas de suas argumentações, o religioso afirma que a verdade é única, a católica; portanto universal. O riso é geral.

Processo de Giordano Bruno prova como a igreja católica evoluiu muito pouco mesmo com o avanço da humanidade nestes mais de quatro séculos. Em diversos momentos da peça, lembrei-me como o teólogo brasileiro Leonardo Boff sofreu com a censura imposta pela Igreja nos anos 90 quando foi inquirido por Joseph Ratzinger, hoje o Papa Bento XVI.
O grande destaque da montagem, sem dúvida, é para a atuação de Celso Frateschi: com que vigor o ator encarna o injustiçado filósofo! Porém, este mérito deve ser dividido com outros companheiros de cena, André Correa, Angelo Brandini, Dagoberto Feliz, Hermes Baroli e William Amaral, tão densos e vigorosos quanto Frateschi.


Roteiro
Processo de Giordano Bruno
. Texto: Mário Moretti. Direção e tradução: Rubens Rusche. Elenco: Celso Frateschi, André Correa, Angelo Brandini, Dagoberto Feliz, Hermes Baroli e William Amaral. Cenografia e figurinos: Sylvia Moreira. Iluminação: Wagner Freire.

Serviço:
SESC Vila Mariana (608 lugares), Rua Pelotas, 141. Telefone – 5080-3000. Horários: sextas e sábados às 21hs e domingos às 18hs. Ingressos: R$ 24,00 (inteira), R$ 12,00 (usuário inscrito no SESC e dependentes, +60 anos, estudantes e professores da rede pública de ensino), R$ 6,00 (trabalhador no comércio de bens, serviços e turismo matriculado no SESC e dependentes).Bilheteria: terça a sexta das 9h às 21h30, aos sábados das 10h às 21h30, domingos e feriados das 10h às 18h30. Informações – 0800 118220.Acessibilidade. Duração: 90 minutos. Temporada: Até 10 de junho.

Autor: - Categoria(s): Artigos, Resenhas e Crônicas, Colaboradores, DESTAQUE Tags: , , , , , , , , , ,

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