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El Truco
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Artigo: Teatro experimental com qualidade

Em Divinas Palavras, adaptação da obra do dramaturgo Ramón del Valle-Inclán, é encenada a história de um portador de deficiências mentais e físicas, filho de uma velha mendiga e alcoólatra. Depois da morte de sua mãe, ele é disputado por duas mulheres em razão da fonte de renda que pode tornar-se, angariando esmolas. Ambas entram num acordo, que algum tempo depois é quebrado por uma delas, ocasionando um confronto entre todas as personagens.


Egnaldo Oliveira, especial para o Aplauso Brasil (aplausobrasil@aplausobrasil.com)

 

SÃO PAULO - Dentre as recentes montagens do grupo, duas estão em cartaz até 16 de dezembro, Divinas Palavras, com direção de Rodolfo García Vazquez, com o núcleo principal da companhia, e El Truco, dirigido por Roberto Áudio, com o núcleo experimental.

 

Em Divinas Palavras, adaptação da obra do dramaturgo Ramón del Valle-Inclán, é encenada a história de um portador de deficiências mentais e físicas, filho de uma velha mendiga e alcoólatra. Depois da morte de sua mãe, ele é disputado por duas mulheres em razão da fonte de renda que pode tornar-se, angariando esmolas. Ambas entram num acordo, que algum tempo depois é quebrado por uma delas, ocasionando um confronto entre todas as personagens.

 

A montagem El Truco é resultado de um trabalho realizado pelo diretor Roberto Áudio e o Núcleo Experimental dos Satyros, grupo formado por ex-alunos das Oficinas Livres de Interpretação da Companhia de Teatro Os Satyros. A peça baseia-se num jogo metalingüístico, no qual os atores, presos num bunker, tentam ensaiar o espetáculo Sonho de uma Noite de Verão, de Shakespeare. Na montagem, atores confundem-se com suas personagens, misturando ficção e realidade.

 

 

Os 18 anos de Os Satyros

 

Fundada em 1989 por Ivam Cabral e Rodolfo Garcia Vazquez, a companhia de teatro Os Satyros é hoje um dos mais importantes e respeitados grupos de teatro experimental do país.

 

Logo no início de suas atividades, especialmente com as montagens Sades (1989) e Saló, Salomé (1991), Os Satyros dividiram crítica e público, em razão de cenas de sexo e escatologia presentes nessas peças. Após isso, a companhia transferiu-se para a Europa, participando de festivais em Portugal, Espanha, Escócia, Inglaterra e França. Considerados pela crítica internacional a sensação do Edinburgh Festival, uma série de festivais simultâneos, realizado anualmente na cidade de Edimburgo, Escócia.

 

Em seguida, a companhia voltou ao Brasil, dessa vez instalando-se em uma nova sede na Praça Franklin Roosevelt, no centro de São Paulo. Isso provocou uma  importante revitalização cultural na região, visto que esta se encontrava abandonada.

 

O processo de criação da companhia é realizado com pesquisas constantes, que visam à elaboração de um teatro crítico em contínuo processo de reconstrução. O grupo é ainda responsável pelas Satyrianas, evento cultural realizado anualmente em São Paulo. Em sua última edição, a festa contou com 80 horas de atividades ininterruptas, tendo o público livre acesso a mais de 200 apresentações de peças teatrais.

 

Em razão da qualidade e criatividade presentes em seu trabalho, o grupo já recebeu elogios de grandes nomes do teatro brasileiro, como o ator Paulo Autran. Além disso, merece destaque por realizar montagens a preços acessíveis, permitindo ao grande público o contato com textos de referência da dramaturgia mundial.

 

 

 

Em entrevista ao Aplauso Brasil, Maria Campanelli Haas, uma das atrizes de El Truco, fala sobre a peça e os desafios da interpretação.

 

Aplauso Brasil - Em El Truco encena-se uma obra de Shakespeare, em um bunker, em meio a uma guerra, com o intuito de passar o tempo. Essa encenação é contraponto ao horror da condição das personagens. Há aí uma associação com a realidade, onde criaríamos coisas belas para contrapor o cotidiano?

Maria Campanelli Haas - Exatamente. Há inclusive uma frase da personagem Hipólita que diz: “Talvez não precisássemos ensaiar ou tentar fazer teatro, para distrair a realidade, para não mastigarmos uns aos outros, para não devorarmos nossas vísceras aqui dentro. Esse foi o pretexto!”. A peça que os sobreviventes do bunker tentam encenar nada mais é do que uma fuga da realidade cruel, da guerra que está acontecendo lá fora. Exatamente como nós, conscientemente ou não, fazemos com a nossa vida.

 

Aplauso Brasil - O fato de Os Satyros ser uma companhia experimental influi no trabalho de vocês como atores, levando-se em consideração a temática abordada pelas peças, a participação no processo de criação e a possibilidade de dividir o palco com atores mais experientes?

Maria Campanelli Haas - Os Satyros trabalha com a filosofia do “ator-criador”. Isto é realmente muito fascinante e desafiador. O ator cria, interpreta, enfim.... o processo da montagem da peça passa a ser de colaboração coletiva, o que acaba tornando o espetáculo realmente único e, de certo, modo, inusitado.

 

Aplauso Brasil - A peça apresenta cenas e personagens que aparentam não terem medo do ridículo e do absurdo, além de muitas vezes terem um comportamento que beira a loucura. Como é, para um ator, encenar nessas condições?

Maria Campanelli Haas - Para mim nada mais é do que um desafio. O comportamento das personagens da peça mostra exatamente o nosso comportamento na sociedade: mostra como damos importância à opinião dos outros, como às vezes deixamos de fazer certas coisas por medo do que vão pensar, enfim.... ao encenar El Truco, gosto muito de observar a reação da platéia em certas cenas. Observar como em cenas tristes, ou cenas que mostram preconceito e certos tabus, algumas pessoas choram (que é a reação mais, digamos, comum) e certas pessoas dão risada. Vejo essa risada como uma fuga, um desconforto ao reconhecer aquela situação que, profundamente incomoda, e que talvez seja difícil para pessoa reconhecê-la, enfrentá-la.

 

Aplauso Brasil - Como é fazer teatro, tendo à disposição poucos recursos e estrutura?

Maria Campanelli Haas - Eu diria que é como uma escola. Nós, do Núcleo Experimental do Satyros, temos de aprender todas as etapas do teatro, desde a operação da luz, da escolha da trilha sonora, da montagem do texto....É desafiador e excitante.

 

 

Serviço:

 

"El Truco"


Texto e direção: Roberto Áudio
Iluminação: Rodolfo García Vazquez
Máscaras: José Torero
Assistência de direção: Doiego Andrade
Coordenação pedagógica do NES: Silvanah Santos
Operação de som: Antônio Marcos Ribeiro da Costa
Operação de luz: Dênis Miranda

Elenco: Ana Lúcia Felipe, Ana Pereira, Andressa Cabral, Ângela Ribeiro, Cléo De Páris, Edna Elizabeth, Fabiana Souza, Helder da Rocha, Ivam Cabral, Laerte Késsimos, Marba Goicocchea, Maria Campanelli Haas, Paulo Maeda, Ricardo Socalschi, Teka Romualdo, Thammy Allonso, Thiago Baliero, Wagner Mendonça, Wanderley Safir e Washington Calegari

Onde: Espaço dos Satyros Dois: Praça Roosevelt, 124 - tel. (11) 3258-6345

Quando: até 16 de dezembro - domingos às 18h00

Lotação: 70 lugares
Recomendação: impróprio para menores de 14 anos
Duração: 90 minutos
Ingressos: R$ 20,00 - desconto de 50% para estudantes, classe artística e terceira idade - moradores da Praça Roosevelt pagam R$ 5,00

 


"Divinas Palavras"


Texto: Ramón Dell Valle-Inclán
Tradução e adaptação: Ivam Cabral e Rodolfo García Vazquez
Cenário e Figurinos: Márcio Vinícius
Trilha Sonora: Ivam Cabral
Iluminação: Rodolfo García Vazquez
Programação Visual: Laerte Késsimos
Direção: Rodolfo García Vazquez
Patrocínio: Programa de Fomento ao Teatro da Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo

 

Elenco: Silvanah Santos, Alberto Guzik, Ivam Cabral, Cléo De Páris, Nora Toledo, Laerte Késsimos, Phedra D. Córdoba, Angela Barros, Daniel Tavares, Fabio Penna, Marba Goicocchea, Mariana Olivaes, Soraya Aguillera e Tiago Leal

Onde: Espaço dos Satyros Um: Praça Roosevelt, 214 - Tel. (11) 3258 6345
Quando: até 16 de dezembro - sextas e sábados às 21h30 e domingos às 21h00 - 3 e 10 de dezembro às 20h00

Lotação: 70 lugares - Acesso a Deficientes - Ar Condicionado
Recomendação: desaconselhável para menores de 14 anos
Duração: 90 minutos

Ingressos: R$ 25,00 - desconto de 50% para estudantes, classe artística e terceira idade - R$ 5,00 para moradores da Praça Roosevelt

 

 

 



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