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| Capa do livro LEITE DERRAMADO, o novo livro de Chico Buarque. |
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Resenha: As contundências de um leite derramado
SÃO PAULO - Imaginem uma mistura de Bentinho, Brás Cubas e Paulo Honório. Imaginem ainda que seus temperamentos ganhem maior força e atualidade, alimentados pela contradição violenta de um regime automático de troca de autoridades. Temos aí algo da essência do narrador de Leite Derramado, o novo livro de Chico Buarque.
Del Candeias, especial para o Aplauso Brasil (delcandeias@aplausobrasil.com)
SÃO PAULO - Imaginem uma mistura de Bentinho, Brás Cubas e Paulo Honório. Imaginem ainda que seus temperamentos ganhem maior força e atualidade, alimentados pela contradição violenta de um regime automático de troca de autoridades. Temos aí algo da essência do narrador de Leite Derramado, o novo livro de Chico Buarque.
Num jogo de espelhos em que, primeiro se obscurece o interlocutor das memórias, e, aos poucos, seu próprio produtor - que, na confusão entre personagens de sua história, também não distingue quem é ele mesmo -, o romance dialoga com a tradição da literatura brasileira, na medida em que a narrativa é responsabilidade de um integrante da classe alta brasileira que, ao narrar, se coloca em xeque.
Se na leitura dos romances realistas de Machado devemos manter um pé atrás, nesta, devemos manter os dois, porque não resta dúvida sobre com quem estamos lidando. Diferentemente das sutilezas de Bentinho e do rebuscamento de Brás Cubas, é de modo gritante que aparecem elementos centrais de certa postura conservadora e perversa do Brasil: racismo, preconceito de classe, autoritarismo, machismo, possessividade, o provinciano complexo de inferioridade diante do estrangeiro, arbitrariedade, arrogância, política do favor.
A intensificação dessas características dá nova roupagem a esse tipo de narrador, pois apresenta um grau mais elevado de violência e desfaçatez do tipo representado. Com direito a racismo esclarecido, o uso da máquina pública em benefício próprio e o imperativo do prazer, sobretudo o sexual, que ignora as integridades dos indivíduos, de sua saúde, das relações de parentesco, da história individual e coletiva. A cena do início do livro em que o filho compartilha putas e cocaína com o pai às escondidas da mãe é bem sintomática a esse respeito. O novo recurso talvez ganhe em atualidade, e se aproveite da maior liberdade ensejada pela distância do tempo da realidade narrada, mas pode ser que perca em excesso, de modo semelhante ao ultrarrealismo chocante de alguns escritores nacionais do século 19 e de Eça de Queirós. Talvez...
Outra roupagem nova é o espelhamento (que recorre na literatura brasileira de outras maneiras) transposto para o contexto de leitura, provocando desta vez no próprio leitor a confusão de quem é quem. É possível que sua causa venha da relação dúbia entre o narrador criança e a ama-de-leite, a qual é transferida para a dele com a mãe e a dele com a esposa, levada à completa anulação e à morte por ser constrangida à condição de contagiada pela cor parda e fruto do pecado da mestiçagem. Esse jogo de transferências é resultado de uma educação dirigida por um hedonismo ilimitado, financiado pelo pai, riquíssimo empresário e senhor. Por isso o desejo sexual ganha a estatura divina de onipresença e onipotência. E rege quase toda a ação do livro, desde as atitudes possessivas do narrador, bancado por seu lugar na classe alta, até sua decadência, provocada pela libido irrefletida de seus descendentes.
Se a presença forte da sexualidade desmesurada como elemento integrante de nosso sistema social não é assunto tão novo principalmente a partir de Gilberto Freyre, a decadência de cem anos que a narração acompanha é semelhante, porém, bem mais atual do que a retratada na obra de José Lins do Rego. Se tomasse em importância o lugar da sexualidade na construção do enredo talvez o livro fosse ainda mais interessante.
Os membros da família brasileira tipicamente patriarcal se aristocratizam de um modo bem particular, por terem sua origem num sistema capitalista e estamental a um só tempo. Sem acompanharem as transformações na dinâmica da economia, já que estão situados por questões de herança, ou seja o velho “sangue”, na riqueza absoluta e superpoderosa, os descendentes mais distantes da primeira linhagem bem-sucedida, sobretudo os que se acreditam imbuídos divinamente de seus poderes, perdem facilmente seu lugar por meio das mesmas “forças do destino”. Assim foi com herdeiros do ciclo da cana, assim foi mais recentemente com herdeiros do ciclo do café.
Essa é a condição do narrador. “Formado” à base de prazer hegemônico e hegemonia do prazer, não acompanha, apenas assiste às transformações cada vez mais frenéticas da realidade brasileira, acreditando estar imune. Ele se admira com a ascensão dos novos ricos, que contraria o antigo regime das famílias tradicionais no poder, o aumento e as novas configurações da população carioca, o aniquilamento da arquitetura e da geografia originais do Rio de Janeiro, a filiação de um descendente ao comunismo, o enriquecimento abrupto de outro, a invalidez da força mágica do nome de sua família, a quebra do feitiço de suas antigas influências e a decrepitude de sua saúde em sintonia com essa realidade escombrosa.
Diante das ruínas de um passado de passatempo e violência, ele não percebe, mas mostra que não é nada, podendo assumir a persona de qualquer um dos participante de sua história vazia de essência, porque não é trajetória de um sujeito verdadeiro. A necessidade incontida de ele falar e registrar suas memórias talvez seja a esperança de encontrar nela alguma consistência, tão grossa e viva como a do leite.
Com muita habilidade, Chico Buarque conduz esse emaranhado tão denso e melancólico de maneira fluida, instigante e sedutora. Leite derramado é um ótimo livro.
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