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Rosaly Papadopol é Hilda Hilst
Crítica: Com a bênção de Dionísio

SÃO PAULO - Três de nossas divas encenam monólogos em teatros diferentes, c


Maria Lúcia Candeias*, especial para o Aplauso Brasil (mlcandeias@aplausobrasil.com)

 

SÃO PAULO - Três de nossas divas encenam monólogos em teatros diferentes, como num culto a Dionísio, deus do teatro, e certamente estão sendo abençoadas por ele. A primeira, Fernanda Montenegro. As pessoas amam tanto a atriz, a ponto de os ingressos se esgotarem para toda a temporada de apenas seis semanas, antes mesmo de sua estréia. De modo que não adianta dizer não percam Viver Sem Tempos Mortos, no SESC Anchieta. A segunda é Betty Faria, no CCBB, com Shirley Valentine, de Willy Russel, e a terceira é Rosaly Popadopol, no Teatro do Centro da Terra, em Hilda Hilst- O Espírito da Coisa, de Gaspar Guimarães.

 

A montagem de Fernanda - dirigida com absoluta discrição por Felipe Hirsch e Daniela Thomas (direção de arte) - é extremamente tocante. Focaliza a atriz que nos fala em nome de Simone de Beauvoir e de si mesma. Utiliza cartas da escritora francesa para Jean Paul Sartre como se, de certo modo, fossem dela mesma para seu marido Fernando Torres, com quem conviveu por 60 anos, a quem dedica o espetáculo. Fernando Torres faleceu em 2008 e percebe-se que a viúva encontrou as palavras que queria dizer sobre sua relação de amor nas cartas de Simone, por serem relações de igual intensidade. É muito bonito e singelo. A platéia não pára de aplaudir e se emocionar com o recado.

 

Depois de longo tempo afastada dos palcos, Betty Faria consegue dar conta de Shirley Valentine, mulher que vai viajar para a Grécia para dar um tempo devido a casamento longo ter caído no marasmo. Só em cena, (num texto que com mais atores esteve em cartaz no cinema e mesmo no teatro, com excelente montagem e Renata Sorrah no papel principal) arrisca-se, com sucesso, sem um minuto de monotonia, dirigida por Guilherme Leme. Isso, como no caso da Fernanda sem troca de cenários ou figurinos, aparentando naturalidade, como se estivessem sem maquiagem. Também gostei de ver.

 

Mais jovem do que Fernanda e Betty, Rosaly se movimenta bastante no palco que tem cenário caprichado de André Cortez. Apresenta sob muitos ângulos a complexa personagem da poetisa Hilda Hilst (que era considerada excelente por ninguém menos do que Anatol Rosenfeld, falecido na década de 1970, mas grande guru dos teóricos de teatro e literatura). Mostra as várias facetas dessa mulher liberada mais do que o comum para sua época, que passou por fase diríamos esotérica e no fim da vida virou quase pornô. Rosaly consegue criar simpatia por Hilda graças à sua brilhante interpretação e à direção eficiente de Ruy Cortez.  Talvez com alguns cortes no texto, que por vezes nos pareceu redundante, o espetáculo fluiria melhor. Túnica se encarrega da direção musical e Fábio Retti da ótima iluminação. Vale conferir.

 

 

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*Maria Lúcia Candeias é Doutora em teatro pela USP e Livre Docente pela Unicamp



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