Aplauso BRASIL
::Matérias
Lone Wolf Tribe na Mostra São Paulo
Festival Internacional de Brasil, o Cena Contemporânea, traz espetáculos inéditos a SP

Em entrevista a Michel Fernandes, o diretor teatral Guilherme Reis, curador do Cena Contemporânea, fala mais sobre o Festival, sobre o Cena Contemporânea – Mostra São Paulo e sobre o espetáculo que dirige, Dinossauros, representante de Brasília na Mostra São Paulo.


Michel Fernandes, especial para o Último Segundo (michel@aplausobrasil.com)

SÃO PAULO - A 10ª edição do Festival Internacional de Teatro de Brasília, o Cena Contemporânea, tem um presente para o público paulistano. O Festival tem em sua programação, graças a uma parceria com o Centro Cultural Banco do Brasil, a Mostra São Paulo que, a partir desta quinta-feira (27), traz três espetáculos internacionais e um brasileiro.

Até o dia 20 de setembro passarão por São Paulo uma companhia dos Estados Unidos, outra do Uruguai, uma argentina e outra de Brasília, todas com espetáculos inéditos aqui na capital e com um intuito comum de estabelecer a pesquisa de novas linguagens cênicas – segundo o curador do Festival, o diretor Guilherme Reis (entrevista completa abaixo) , apesar de não haver um tema que norteou as opções dos espetáculos convidados, o fato do mesmo buscar espetáculos que visem a pesquisa, acabou por delinear a escolha das peças que compõe a programação, duas delas, inclusive, marcadas pelo diálogo com a dança –, com excelência artística e criatividade comprovadas.

O primeiro espetáculo a se apresentar no Cena Contemporânea – Mostra São Paulo é norte-americano  The Hobo Grunt Cycle, da Lone Wolf Tribe, que mescla marionetes e intérpretes, com a direção artística de Kevin Augustine. Na semana seguinte (3 a 6 de setembro), Tercer Cuerpo, da Argentina. De 10 a 13 de setembro, o uruguaio El País de Las Maravillas, e encerrando a programação, de 17 a 20 de setembro, Dinossauros, espetáculo criado em Brasília. e que tem recebido excelentes críticas nos festivais por onde passa.

 

Em entrevista a Michel Fernandes, o diretor teatral Guilherme Reis, curador do Cena Contemporânea, fala mais sobre o Festival, sobre o Cena Contemporânea – Mostra São Paulo e sobre o espetáculo que dirige, Dinossauros, representante de Brasília na Mostra São Paulo.

 

Michel Fernandes - Qual o foco temático do Cena Contemporânea esse ano? O que a curadoria viu como ponto de intersecção na mostra desses espetáculos?

Guilherme Reis - A curadoria do Cena não se guia exatamente por um tema. Mas tem sido curioso observar que, mesmo tendo nossa busca concentrada em selecionar espetáculos inovadores, que investigam novas possibilidades de linguagem, trabalham diferentes elementos de encenação etc., a cada ano o Festival acaba sendo caracterizado por um tema em especial. É como se o festival funcionasse como uma espécie de antena, que captasse o pensamento dos artistas. E como já disse o poeta Ezra Pound, "o artista é a antena da raça". De alguma forma, então, nós expressamos as preocupações mais urgentes do espírito humano. Então, este ano o foco estará voltado para questões relacionadas à violência da guerra, à incomunicabilidade, à solidão e à imigração. São temas que perpassam todos os espetáculos – e naturalmente devem estar na mente dos criadores.

 

 Michel Fernandes - Qual a significação de abranger a cidade de São Paulo dentro deste festival?

Guilherme Reis - Chegar a São Paulo é ampliar o alcance de um trabalho que vem sendo desenvolvido desde 1995, quando nasceu o Cena Contemporânea. Desde então, anualmente, o Cena procura oferecer aos espectadores uma programação feita de espetáculos inéditos, senão no Brasil, pelo menos em Brasília. Em 2009, quando comemoramos a décima edição, estamos trazendo nove espetáculos internacionais, oito deles nunca apresentados no Brasil. A parceria com o CCBB em São Paulo amplia esta possibilidade de visibilidade não só dos espetáculos como também do trabalho desenvolvido pelo festival. São Paulo é uma cidade que produz grande parte dos melhores espetáculos do Brasil - e seu público consome estes espetáculos. Achamos que o Cena pode contribuir para a circulação de novas idéias, a renovação de técnicas, novas propostas de linguagem etc.  

 

Michel Fernandes - Qual o foco principal do Festival?

Guilherme Reis - Nosso foco sempre foi fugir do teatro comercial. Nós buscamos aquilo que pode surpreender o espectador, aquilo que dá um respiro novo à linguagem teatral, os trabalhos que ousam. Temos também a preocupação de apresentar trabalhos de vários estados do Brasil e não apenas das cidades tradicionalmente identificadas como pólos teatrais. E, também, incluir sempre a dança na programação. É um festival de artes cênicas e não apenas de teatro. Gosto de espetáculos que promovem este diálogo. Este ano, temos duas propostas que podem ser apresentadas como dança-teatro ou teatro-dança.

 

Michel Fernandes - Quais as vantagens e desvantagens do festival ser realizado na capital federal?

Guilherme Reis - É preciso compreender que Brasília existe, independente do Congresso Nacional, do Palácio do Planalto, da Esplanada dos Ministérios. Nestes locais estão os representantes eleitos por pessoas de todo o Brasil e que vêm pra cá como forasteiros. Eles não criam vínculos com a cidade e a arte de Brasília não depende destas pessoas para viver. Desta forma, não vejo desvantagem de qualquer espécie na realização de um festival internacional de teatro onde quer que ele se realize. É sempre a possibilidade de ventilar idéias, de quebrar preconceitos, de se reinventar. Mas vantagens existem muitas: é o nosso imenso céu azul, que oferece uma sensação inigualável de espaço, de liberdade, de ar puro; é o nosso público, muito receptivo e também muito crítico, que comparece em massa ao festival; é o clima quente deste período do ano, que transforma nossos shows e festas ao ar livre em momentos inesquecíveis (temos depoimentos de vários artistas internacionais que confessam seu encantamento); é a equipe que reunimos nesta cidade jovem e cheia de gente disposta a aprender; é o fato de vivermos numa cidade onde estamos fazendo a história.

 

Michel Fernandes - Meio a esse escândalo no senado qual o papel e a posição do festival?

Guilherme Reis - O festival é um evento de arte que espelha os pensamentos e sentimentos dos artistas do mundo que participam dele como convidados. Como eu já falei, Brasília não se esgota no cenário político, como podem pensar os brasileiros que acompanham as notícias da mídia. Para a mídia, Brasília é apenas o palco do jogo político. Ela não existe como cidade pensante e criativa. Isso é um engano. Não é Brasília apenas que tem problemas: é o Brasil! E como artistas e cidadãos, nos envergonham a desonestidade, a politicagem, a corrupção.

 

Michel Fernandes - Quais as próximas intenções para as outras edições do festival?

Guilherme Reis - Estamos já negociando algumas atrações, mas como não temos nada acertado ainda, prefiro não me adiantar. O que posso, talvez, dizer é que poderemos ter a presença de uma companhia norte-americana consagrada, que nunca antes veio ao Brasil... mas tudo é ainda hipotético.

 

Michel Fernandes - Quais os pontos mais destacáveis de Dinossauros?

Guilherme Reis - Dinossauros nasceu de uma série de desejos do que depois se tornou o Grupo Cena. Queríamos trabalhar uma proposta de ênfase ao trabalho do ator e ao texto, queríamos juntar atores experientes em trabalhos consistentes, investigar a dramaturgia latino-americana (que é tão desconhecida dos brasileiros), manter um espaço fixo para o exercício teatral, abrir um centro de pesquisa e de informação teatral em Brasília. Então, foi o primeiro passo disso tudo. E o espetáculo acabou extrapolando estes objetivos e abrindo seu próprio caminho.  É um trabalho muito afinado de dois atores. Um texto sensível, que apresenta dois seres humanos capazes de fazer a platéia rir e também se emocionar. Tem situações plausíveis e outras que beiram o absurdo. Já recebemos uma crítica que disse que o espetáculo é uma pérola, uma pequena obra-prima. Acho que é um achado, daqueles que acontecem poucas vezes na vida de um artista.

 

Michel Fernandes - A vinda Do Grupo Cena para São Paulo gera algum tipo diferente de perspectivas?

Guilherme Reis - Com Dinossauros, nós já estivemos em vários festivais – um deles no estado de São Paulo, o de São José do Rio Preto - e a receptividade é sempre muito boa. Nós fizemos uma pequena temporada no Rio de Janeiro e gostaríamos de voltar pois foi excelente! Acredito que o público de São Paulo vai se identificar muito com o trabalho, pois fala um pouco da solidão que nasce em quem vive nas grandes cidades, fala da incomunicabilidade dos habitantes das metrópoles e fala também do afeto oculto. Então, acho que é a cara de São Paulo. Nossa expectativa é que o público goste, que a crítica aprove e que a gente volte!

 

 

CENA CONTEMPORÂNEA – MOSTRA SÃO PAULO

De 27 de agosto a 20 de setembro

Centro Cultural Banco do Brasil – São Paulo.

Quintas-feiras a sábados, as 19h30 e domingos às 18h.

www.cenacontemporanea.com.br

 

Capacidade – 125 lugares.

Ingressos – R$ 15,00 (inteira) e R$ 7,00 (meia-entrada) para estudantes, idosos e professores. Clientes e funcionários do Banco do Brasil também pagam meia, com direito a um acompanhante, também pagando meia-entrada.

 

Centro Cultural Banco do Brasil – São Paulo

Rua Álvares Penteado, 112, Centro

(11) 3113-3651 / 3113-3652

Próximo às estações Sé e São Bento do Metrô

www.bb.com.br/cultura

 

Acessos: Estações Sé e São Bento do Metrô. Praças do Patriarca e da Sé.

Acesso e facilidades para pessoas com deficiência física// Ar-condicionado // Loja // Café Cafezal

 

Estacionamentos: Opções de estacionamentos particulares na Rua Boa Vista, Rua Senador Feijó e Rua Libero Badaró. Confirmar dias e horários de funcionamento.

 

 







::Matérias anteriores