Aplauso BRASIL
::Artigos, Resenhas e Crônicas
Menino-sol e calendários astrológicos (Para Alberto)
Compre
Menino-sol e calendários astrológicos (Para Alberto)

Aqui se iniciam todos os acertos da astrologia, aqui se acabam e aqui se encerram: a capacidade humana de a tudo dar sentido, até ao que não em si tem, e olhem: quase nada tem. Num mito, a causa de nossa miserável situação e de nossa origem; num desejo incontornável de persistir o “au-delá”, para onde vamos. Numa falha de parede eu vejo um contorno de mulher, num reflexo num vidro, imagem de santa, num sonho, a minha alma em forma de menina. Quantos velhos moribundos não viram a menina pelo quarto, e a tal imagem, àquela hora derradeira, fazia todo sentido?


TextoLivre de Saulo Krieger, especial para Aplauso Brasil (saulo@aplausobrasil.com)

 

Aqui se iniciam todos os acertos da astrologia, aqui se acabam e aqui se encerram: a capacidade humana de a tudo dar sentido, até ao que não em si tem, e olhem: quase nada tem. Num mito, a causa de nossa miserável situação e de nossa origem; num desejo incontornável de persistir o “au-delá”, para onde vamos. Numa falha de parede eu vejo um contorno de mulher, num reflexo num vidro, imagem de santa, num sonho, a minha alma em forma de menina. Quantos velhos moribundos não viram a menina pelo quarto, e a tal imagem, àquela hora derradeira, fazia todo sentido?

 

Nem velho nem moribundo, tenho um menino que é para mim feito o sol. Às vezes esqueço dele, mas ele está lá. Às vezes morno, às vezes frio. Às vezes noite. Ele não é um planeta, uma casa, que responde sempre e sempre diz o que pergunto. Sobre ele não tenho controle algum. Mas sempre quando realmente me aparece é radiante, como na primeira vez em que o vi, camiseta vermelha, cansado e suado da corrida, os olhos dardejantes vieram cravar nos meus:  é regido pelo sol.

 

Certa vez, das vezes em que me apareceu na noite, me disse ainda uma vez ser de leão, e disse que para ele isso fazia todo o sentido. “Faz sim”, respondi. Porque você o procurou, feito um menino que esculpe na massa do pão, e de tão presente, o sentido que se coloca sempre vai estar lá. Como estarei aqui pra você, todas as vezes em que me procurar. E comecei uma breve elocução sobre os calendários astrológicos, criados pelo homem, um segundo as estações, o outro, no rigor do inverno, quando não havia estações a celebrar, e por isso passaram a imaginar um “au-delá”, por ocasião do invernal uma libertação daquele ciclo, por um indício de vencer a morte uma imagem de um transcendente inventado. Feito um plutão destronado, falei de alguns mitos astrológicos ao meu menino-sol, e ele perguntou onde estavam, ao que eu disse "não sei" — o que não deixa de parecer estranho, não fosse o tema a crença na astrologia, à revelia de uma compreensão de qualquer relação causal. Como não sei das fontes, nem pretendo com o tema rigor algum, prometi a ele criar um lugar escrito para transmitir o que há de humano e de sentido em tais relatos milenares, e o faço agora, aqui.


Abstraiam de nossas estações austrais, e pensem nas do norte, que para o relativo realmente importam. Ah, e creiam — creiam muito:

 

Áries é o primeiro, o início da primavera, e começo do tempo bom e quase a ficar quente: época de tosar carneiros e de não pensar em nada. Agir, brotar, se reagir, que o seja por impulso, feito a Natureza que renasce. Não há passado a lembrar, pois este foi levado com as neves.

 

Touro vem depois. Do bípede o pé segundo sobre a terra, num tempo que já firmou: é tempo de arar a terra e senti-la sob os pés. É a hora do trabalho e do persistir, até porque o viver é fácil, e a labuta, boa pra se ruminar.


De gêmeos eu sei pouco e falo muito. Em ciclo ainda tão incipiente ainda há pouco que saber, e muito o que viver, vivenciar, conhecer, sem se aprofundar, pois tudo é novo, e há tanto e tudo é tão novo, que para tanto é preciso ser ao menos dois: pudera: a primavera já se vai, mas anuncia sem choques nem rupturas uma estação estival e irmã: uma e outra dão-se as mãos no solstício de verão, cunhando a impressão de passagem fácil.

 

Câncer: a semente está na terra a germinar. Não há muito o que fazer, a experiência tampouco é muita: senta-se, olha-se para trás, relembra-se a infância que mal passou. A infância não é um estado que passa; é um estado em que se está. O tempo, é claro, o move para frente, mas pela primeira vez ele sabe que pode olhar pra trás, que há passado. À revelia de todo o resto, ele o faz.

 

Leão: o verão está em plenitude. O sol pouco se inclina, é como se fosse a pino. De tal modo que ele se sente o centro. Como se tudo fosse para ele. Assim é, se lhe parece. De tanta pujança há transbordamento, faz calor, a vida é fácil, a juba cresce. Certa vez o meu menino-sol cortou um pouco da juba, que me ralava a pele branca, invernal e fina. Pra mim foi prova de amor, mas isso é outra história.

Virgem: a terra como que deflorada. Tempo de colheita, de trabalho, de escrutínio, do trigo separar o joio. Diz a Natureza, é tempo de discriminar, e os detalhes não são detalhes.

 

Libra: pesar o que se fez, o que nos deu a terra e se colheu. Nem tão quente nem tão frio: regula, é convidativo, e a Natureza convida à receptividade e à temperança: bem recebe, é morno, e não de um morno repulsivo, um morno, sim, da harmonia que é de todos os confortos.

 

Escorpião: os dias começaram a ficar mais curtos, as noites, mais longas. Passou-se a ter medo de tudo, daquele momento de trevas. A morte parecia vencer, e escolheram a retratá-la o bicho mais perigoso, suicida como a Natureza parecia ser. É o signo da morte, do sexo que se faz para vencer a morte.

 

Sagitário: a noite venceu o dia. Já não há olhar ao mundo que se valha. Consciente de mortal, meio animal e meio homem, religioso e filosófico, impulsivo das introversões, um olhar ao au-delá em forma de flecha.

 

Capricórnio é solstício de verão, e o centauro, meio bicho, meio homem, cede lugar a um animal fabuloso, ou, em versão aproximada, a um animal de pouco fausto, posto que ambicioso. Sou mais do que sei da cabra montesca, a não ser que, pé ante pé, e acima dos mortais, solitária quer chegar aos cumes solitários e nevados. Respirar os ares rarefeitos, replicando, assim, o au-delá: vitória da luz sobre as trevas, instauradas pela Natureza, suicida, retratadas pelo emblemático escorpião. Não por acaso, dos líderes das religiões dizem ser nascidos sob capricórnio — vide o caso Jesus Cristo.

 

Para terminar a saga, uma pouco mais ao chão, à terra, duas simbologias de calendários mundanos. O aguadeiro a retratar a estação das chuvas e dos raios, descargas elétricas, para o céu ou para a terra, num meio uraniano, não é um e não é outro: é de gazes.

 

Peixes, enfim, o último dos invernais, a retratar o tempo da pesca. E como se pesca? Não como se caça, não como se ara a terra, não como se espera, ou se refestela sob o sol, não como se colhe, nem como se discrimina. Não como se morre, nem como se olha ao céu. Não como se vence as trevas e não como, na estação das águas, se lança à frente sem saber, feito raio: nada e um pouco de tudo isso: balbucia com sua boca, faz a coda com sua cauda: sente-se, como aquele que emite e recebe em um meio todo seu, não é ar e não é terra, não é fogo — e voltarás ao pó? Não. Ao final em todas as crenças se faz água.

 

 

 

 



::Artigos anteriores